Razão e insensibilidade ou para que servem inteligência e erudição?

O Brasil é um país onde a educação formal foi constituída mirando as camadas privilegiadas da sociedade. E as razões são históricas. O tipo de colonização, voltada para o mero enriquecimento de Portugal, não incluía ações organizadas de povoamento do território local, tampouco a implantação de medidas que visassem o bem-estar dos que aqui habitavam. A educação superior era prerrogativa da metrópole e somente as famílias mais abastadas, a partir do século 18, enviavam seus filhos para as universidades portuguesas. 

Está aí uma das explicações para a cultura do bacharelismo. Com a geração de doutores de Coimbra, pouco a pouco, a errônea associação entre erudição e inteligência se consolida e, em diferentes medidas, está presente ainda nos dias atuais. A rigor, erudição, está relacionada à leitura, ao acúmulo de informações e congrega saberes doutos, em oposição ao conhecimento popular. A inteligência é um conjunto de faculdades como a memória, abstração, maturidade emocional ou raciocínio que nos habilita a compreender o mundo. Contudo, muito além de aspectos semânticos ou polissêmicos, a confusão entre as palavras envolve relações de poder e, não raro, encerram restrições. 

Muitas vezes o linguajar hermético é assim estruturado para manter um ideário elitista ou mesmo defender determinado nicho de mercado. O discurso excessivamente técnico ou a falsa erudição típica de alguns ofícios, por exemplo, nos faz depender de determinados profissionais. Fato é que alguns dos grandes pensadores conseguem ser profundos e, ao mesmo tempo, garantir linguagem acessível. 

Picasso foi um inconformado com seu tempo. Iconoclasta, quebrou regras no campo da pintura e enfrentou a moral de sua época com incontáveis amores. Homem de fases, ele espatifou mulheres em tela e na vida com seu temperamento volúvel e apaixonado. A autonomia estética do pintor gerou obras que parecem antecipar visões de mundo ainda hoje. Mesmo que não seja plenamente compreensível para o público não especializado, ele se comunica e continua a arrebatar multidões por décadas. 

Einstein, apesar da complexidade de suas teorias, também atraía grande público em suas palestras e é, até hoje, o cientista mais citado entre jovens estudantes. Novamente, ainda que a compreensão plena dos conteúdos não se dê, os grandes voos mentais do cientista estabeleciam comunicação com os leigos. A própria ideia da relatividade pode ser aplicada a vários aspectos da vida cotidiana. 

Por outras palavras: aqueles que “falam difícil” estão mais interessados em impressionar, pelos mais variados motivos, do que comunicar. Há que se ter a preocupação em estabelecer o diálogo. E não se trata de simples detalhe. O conhecimento não pode ser restringido ou elitizado. A erudição é bem-vinda quando acompanhada da inteligência, que é, principalmente, nossa capacidade de transformação e adaptação às situações com as quais nos deparamos. A erudição faz sentido se nos elevar. Ler ou citar Heráclito cabem se contribuir para alimentar nossos pensamentos e despertar a capacidade de renovar o olhar. Se ambas estão de mãos dadas para ampliar, e não limitar, poderão nos fazer fluir por águas nunca antes navegadas e construir um admirável mundo novo...

* Artista profissional, mestre em Teatro e doutora em Ciências