Salvos do incêndio

Foi dada a partida para a salvação da pátria, versão 201.8. Miniconvenções e maxiconvescotes dispersam no ar ranços de pratos feitos e pães dormidos, musicados com realejos estropiados do “pra frente Brasil”. Confusos entre o “homem cordial” de Buarque de Holanda e o bom selvagem de Rousseau, escorregamos no sarapatel sociológico. Misturado num país escravocrata, veladamente racista, bovarista, o rocambole produzirá recaídas e engulhos como todas as vezes em que buscamos um pai da pátria. Tivemos, nos anos 60, o homem da vassoura; nos 90, o caçador de marajás.

Prova da pertinência de Holanda, vivemos, agora, o rancor. Não que seja descabido. Vemos de tudo: da escória à hiprocrisia, da gatunagem ao assalto descarado, da ética ao sofisma. Até uma jurisprudência impudente. Rotativa. Mais letal, porém, será a perpetuação do modelo econômico e político a tombar o Brasil de todos os índices e ilusões. Da décima economia do mundo para sei lá que círculo do inferno; do pleno emprego ao desemprego revestido de fumos de modernidade; de combate à mortalidade infantil ao evidente aumento de crianças malnutridas, gestantes sem acompanhamento e óbitos anteriormente evitáveis. 

Partidos, os políticos reabrem o tapetão da jogatina. No bazar das ilusões perdidas, o escambo de hoje é a moeda de amanhã. A credibilidade das palavras saem roucas; tão risíveis as cartas marcadas, tão indigesta a pajelança, tão derrotistas as propostas, que o rancor dos milhões de frustrados rumina a compreensível desesperança. 

Nação de 210 milhões de habitantes, país com 8 milhões de quilômetros quadrados, não somos um parvo gigante de pernas de barro. Pagamos até hoje a sina de acreditarmos numa independência surgida de um grito à beira de um riacho, sem perceber que passamos de expropriados a tutelados. No século 21, onde se busca esfarelar o Estado-Nação, nos defrontamos com o convite arrogante: a submissão consentida, por força da ideologia da falsa liberdade. Novo estandarte dos tutores recauchutados.

Esqueçam os salvadores da pátria. Ter salvadores demais é risco de ter pátria de menos. De tantos lobos, não há peles de cordeiros para vesti-los. O poder, felizmente, está nu. E o poder é frio como a sabedoria. Salvadores são salvos do incêndio. Trazem as fagulhas e as cinzas da derrota. Acenam com soluções simplistas sem exigir o rigor da análise. São senhores da verdade. Uma verdade sinuosa, suspeita, quase sempre monolítica, autoritária, desrespeitosa das divergências e dos contrastes. Profundamente refratários à busca de novos caminhos, insistem que o passado conservador é o farol dos novos tempos. São dóceis e ingênuas marionetes de forças, cujas reais dimensões sequer compreendem. Ou se compreendem são simplesmente canalhas.

Ao Brasil se impõe o bem-estar da sociedade. Temos imenso mercado interno com potencialidade de crescimento inegável. Não há de ser com os constrangimentos das falsas liberações do comércio neoliberal que ajudaremos nossa indústria. Não é com maior liberação das bestas financeiras que nossos jovens alcançarão nível de vida compatível com seus méritos. A classe média brasileira empobrece. Pequenas e médias empresas agonizam de crédito escorchante. Livros e mensalidades escolares penduradas no cartão de crédito espoliativo. O único horizonte prometido é a perda, hoje, do direito legítimo do trabalho honesto e, amanhã, do descanso merecido. Só o escravo trabalha até morrer. Só o escravo interrompe a escola para trabalhar.

Pense bem. Seu legítimo rancor é seu maior inimigo. Seu copo de cólera tem as bordas polvilhadas de peçonha. Seu voto em quem prometa a catarse do ódio, a transformação do país num passe de mágica circense, apenas adubará uma terra de saltimbancos. E fará de nosso país um território aberto à cobiça. E de nosso povo, acachapados servidores do servilismo. 

* Ex-embaixador do Brasil na Itália (e-mail: [email protected]