Racismo religioso e o aparelhamento do Estado

É verdade, é fato. A expressão, por mais que choque, é a síntese do que vimos vivendo nas últimas décadas em nosso país: racismo religioso. 

O discurso de que vivemos em um Estado laico já não cola mais. Nos últimos 20/30 anos temos visto um crescimento exponencial do neopentecostalismo de viés fundamentalista, capitaneado pelas igrejas que usam dos veículos de comunicação para atingir corações e mentes impondo, assim, sobre a sociedade, sua visão de mundo, sua visão política, buscando, ao fim e ao cabo, estabelecer no Brasil um Talibanato Pentecostal (por Marianina Impagliasso).

Esse racismo religioso vem se configurando, num primeiro momento, como intolerância religiosa, depois passa a ataque velado até chegar ao que temos visto hoje, que são os ataques violentos e sistemáticos às casas religiosas de matrizes africanas pelos ditos “traficantes evangélicos”. 

Aí está o cerne da questão. O alvo preferencial do que era anteriormente intolerância religiosa e hoje é racismo religioso são todas as religiões que trazem, em si, o recorte de matriz africana, principalmente a Umbanda e o Candomblé. 

Religiões como o judaísmo, islamismo, as orientais, também o são. No entanto são as religiões de matrizes africanas as vítimas preferenciais dos ataques que as demonizam e as colocam como primitivas que sacrificam animais e cultuam divindades que eles mesmos relacionam aos seus demônios, uma vez que essas figuras maléficas não fazem parte do riquíssimo panteão yorubá que dá origem a toda e qualquer religião de matriz africana existente no Brasil.

Nas últimas décadas, esses segmentos neopentecostais descobriram a política partidária e investiram pesado nesse setor. Graças à política de concessão de rádio e TV dos sucessivos governos, que desde a redemocratização nos anos de 1980 perceberam nesse segmento um um grande potencial eleitoral, essas igrejas incrementaram seu crescimento e tornaram-se grandes máquinas políticas além dos partidos tradicionais. Isto posto, notaram que, a partir do seu potencial eleitoral e comunicacional poderiam, elas mesmas, constituir suas estruturas partidárias, eleger seus candidatos e, a partir daí, buscar uma série de favorecimentos legais e políticos para si mesmas.

Essa estratégia tem tornado esses segmentos religiosos tremendamente influentes e poderosos. Hoje elegem vereadores na quase totalidade dos municípios do país, deputados estaduais, federais, senadores e prefeitos. 

No entanto, essas são as faces visíveis do aparelhamento do Estado para a prática do racismo religioso, sem contar a imprensa, a educação pública e até mesmo a cultura, que tem sido apropriada por esses segmentos religiosos como o acarajé, em Salvador, que chamam de “Bolinho de Jesus”, e a Capoeira de Cristo, que dispensa o atabaque por ser “coisa do demônio”, tal como são todos os elementos civilizatórios africanos.

Tristemente, o cenário político eleitoral deste ano mostra um forte avanço desse projeto político de poder, cujos segmentos religiosos chegam a ponto de tentar até mesmo elegerem um candidato à Presidência da República totalmente alinhado com essa visão político-religiosa. 

Que nossos orixás nos abençoem e nos livrem das garras dos opressores. Axé, Iboru, Iboya, ibosheshe. 

* Babalaô da Tradição Afro-cubana de Ifá, Rama Ifanilorun; Ogan confirmado para Yemonja no Ilê Axé Iya Omo Eja