Coluna da Segunda - É a Educação, estúpidos!

Houve um tempo em que os candidatos à Presidência da República apresentavam aos eleitores as prioridades de seu programa de governo. Hoje, o cenário é bem diferente. Como se tem visto na atual campanha, os pré-candidatos comportam-se como especialistas em generalidades e os discursos variam de acordo com a plateia. As prioridades também são camaleônicas, adaptam-se ao ambiente. Até agora, nenhum deles exibiu uma proposta original ou um tema que merecerá destaque em sua gestão, caso eleito. A retórica, nas sabatinas e entrevistas, restringe-se a diagnósticos difusos e a propostas mais vagas ainda. Ninguém ousa apontar um projeto específico. A não ser que se levem a sério as promessas patéticas do ex-capitão, do tipo acabar com o Ministério da Educação e fundir o Ministério da Agricultura com o de Meio Ambiente. 

Seria exigir demais que os homens e as mulheres que pedem seu voto repetissem Juscelino Kubitschek e pusessem na mesa de debates projetos ambiciosos como crescer 50 anos em cinco, nomear um grupo de trabalho para plantar a semente da indústria automobilística e criar a Sudene e a Sudam para desenvolver regiões além do Sul Maravilha. Também nem pensar que os pré-candidatos fossem capazes de algo semelhante à ideia surpreendente de construir uma nova capital no interior do país. Quem sabe, depois de muito esforço e inspiração de suas assessorias, consigam oferecer  à sociedade iniciativas à altura das de Getúlio Vargas nos anos 50, quando fundou o BNDES e a Petrobras. Obviamente, os tempos são outros e o Estado está com a bola murcha. Mesmo assim, é muito pouco falar de imposto único e pente fino nos gastos públicos.  O máximo de ousadia é prometer a revisão da reforma trabalhista, mas sem entrar em detalhes. 

Como diz o filósofo Roberto Romano, da Unicamp, os pré-candidatos não apresentam um programa de governo coerente, um programa de modificação do Estado ou de melhoria da sociedade. Nesse deserto de ideias, faz muita falta um candidato com a postura firme de Leonel de Moura Brizola.  O político gaúcho, durante toda sua vida pública, escolheu o investimento em Educação como prioridade absoluta de suas campanhas. E não ficou em palavras: fez o que prometeu. No Rio Grande do Sul, em quatro anos de gestão, entre 1959 e 1963, Brizola construiu 5.900 escolas primárias, 278 escolas técnicas e 131 ginásios. Contratou 42 mil professores.  Vinte anos mais tarde, após sofrer 15 anos de exílio, o líder trabalhista  foi eleito governador do Rio de Janeiro com a mesma bandeira, ou seja, dedicação absoluta à Educação. Com o professor Darcy Ribeiro a seu lado, lançou o projeto dos Centros Integrados de Educação Pública (Cieps): prédios pré-moldados, com a arte de Oscar Niemeyer e a técnica do arquiteto Lelé Filgueiras, com o objetivo de abrigar estudantes do ensino básico em tempo integral.  Criticado especialmente pelo jornal “O Globo”, que considerava excessivo o custo unitário da  obra, Brizola não arredou pé e construiu 500 Cieps, que estão aí até hoje. 

Por que Brizola valorizava tanto a Educação? Ao responder, ele costumava contar a seguinte história.  Depois de eleito governador do Rio Grande do Sul, durante uma solenidade, viu uma pessoa que não lhe era estranha se aproximar. “Não se lembra de mim?”, disse o interlocutor. Brizola lembrou-se imediatamente. Era um ex-colega na fábrica de óleo e graxa, em que trabalhou como operário na juventude. Após o aperto de mão, convidou-o a visitá-lo no Palácio Piratini. No dia da visita, o ex-colega fez uma pergunta que o intrigava há algum tempo. “Como você conseguiu chegar até aqui, Brizola?”, indagou. “Foi graças à Educação”, respondeu o político. E contou em detalhes todos os passos que deu. Enquanto trabalhava na fábrica, dedicou-se aos estudos. Completou o supletivo, entrou para a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e formou-se em Engenharia Civil. Foi assim que chegou aonde chegou. 

Juscelino abriu estradas e Brizola construiu escolas. O que se pode esperar dos atuais pré-candidatos? Têm algum projeto dos sonhos? Deixo aqui uma modesta sugestão. Que se comprometam pelo menos a retomar o investimento em Educação.