A ideologia neoliberal e suas vilanias

Em geral, os ideólogos neoliberais falam por mantras. Alguns, de  tão repetidos, podem provocar náuseas, dermatites agudas ou obnubilação catastrófica e irreversível da inteligência humana. Quem já não se defrontou com um desses gurus neoliberais a doutrinar sobre  “ponto fora da curva” ou a importância de se “fazer o dever de casa”? Os neolupus, como são chamados os gurus neoliberais nos seminários de Chicago, nos consideram, os não iniciados, pigmeus da sociedade moderna. E se dirigem a nós como personalidades deterioradas, incapazes de ver neoformações trazidas pela matemática superior, pela econometria quântica e pelo manual da Mãe Joana, pois, como não cansam de nos lembrar, a economia de um país é um “símile da economia doméstica”(mantra). A austeridade é um mantra mais recente e surgiu como uma protuberância temporal do “teto de gastos”. Outro mantra. 

E de mantra em mantra os neolupus nos foram vendendo um mundo matreiro, cujas palafitas  pouco se sustentam diante de tanta matreirice e tanto matraquear. Depois da liberação dos fluxos financeiros, que promovem, ao sabor das taxas de juros e de câmbio,  consequências danosas  sobre  dívidas e reservas planeta afora, os neolupus deram para reinventar o mantra sovado do comércio internacional livre.

Economistas desta terra tão necessitada de desenvolvimento, de educação e saúde decretam total abertura do Brasil para o mundo. Somos um país fechado, dizem, com grave circunspecção. E  nos tentam provar, com equações do terceiro milênio, que nosso futuro presidente deveria, como uma de suas primeiras medidas, abrir nossas fronteiras ao produto estrangeiro e aos profissionais liberais (advogados, médicos , dentistas, caminhoneiros). Seríamos, assim, uma nação moderna e progressista. 

Normalmente não daria pelotas para esses neolupus, mas constato, com angústia, que são conselheiros de copa e cozinha de quase todos os principais candidatos presidenciais. E me pergunto em que mundo da Carochinha ideológica transitam esses neoliberais. Não atentam para o que se está passando no planeta em que nós, mortais, habitamos? Se há uma constatação universal é a de que estamos vivendo um caos no comércio internacional. Não há dia que alvoreça sem os noticiários, escritos e falados, conservadores ou radicalmente conservadores, nos alertarem sobre a troca de insultos e despautérios entre os grandes deste mundo. A palavra do dia é guerra comercial, capitaneada pela superpotência mundial, mãe-madrinha do sistema internacional de comércio, criado depois da Segunda Guerra, aperfeiçoado nos anos 90, com a Organização Mundial do Comércio (OMC). E hoje, mister Trump jura que a OMC é nociva aos interesses americanos. E agora? Será que os Estados Unidos da América pretendem liderar um movimento internacional em busca de um comércio mais justo, menos desequilibrado entre os países ricos e pobres, sem esquecer dos emergentes? Tudo indica que não. Se ouvirmos bem mr. Trump, só podemos esperar duas coisas: ou bem os grandes se unem a ele e promovem uma reforma da OMC alinhada com o pensamento unilateral americano ou vamos voltar à política medieval do beggar thy neighbor (empobrecer o  vizinho) que nos levou às guerras sangrentas do século 20. 

Esta é a hora em que, em rio de piranhas, jacaré  astuto nada de costas. Por que, então, o açodamento dos nossos assessores presidenciais? Basicamente porque na ideologia dos mantras a realidade goza de muito pouco prestígio. Aliás, o objetivo dos mantras é ajustar a realidade ao mantra,  de tal forma que  uma se confunda com o outro. Ou que  confunda os outros. Convenhamos: muita coisa não nos interessa na OMC. As regras sobre patentes de medicamentos são defesas oligopolistas descaradas. E há outras anomalias, muitas outras. Defender, num quadro confuso como este, a redução unilateral de nossas tarifas ou a venda de empresas públicas, como forma de tornar o Brasil mais moderno, nada mais são do que mantras a serviço  de vilanias.

* Ex-embaixador do Brasil na Itália