200 milhões em ação...

Vai ter Copa... Outra. 

Mesmo quando se disse que não ia ter, no já longínquo ano de 2013, teve. Tem sempre: a cada quatro anos, pelo menos desde 1950, quando renasce, no pós-guerra, justamente no Brasil. A combalida Europa ainda se arrumava de sua tragédia real, assim como a nova potência futebolística, para receber o torneio e também viver sua maior tragédia, felizmente simbólica.

Há pouca gente para contar o que viu, mas é impressionante como quem, tendo nascido décadas depois, ainda comenta o gol de Ghiggia e o tal silêncio sepulcral que se abateu sobre uma cidade de 2,4 milhões de habitantes, capital de um país de pouco mais de 50 milhões. 

Primeiro, como tragédia, e o 7 a 1, como farsa, fez-se o 18 Brumário dos nossos gramados, reavivando o sentido de que, além de país, somos uma nação, ao menos quando se calçam as chuteiras.

Ouvi certa feita, de um de nossos ilustres embaixadores, ter ele presenciado o desaparecimento de países, mas que as cidades persistem. 

A frase, uma bela construção, não é absoluta. Pompeia, que o Vesúvio comeu, ou São João Marcos, que “foi sem nunca ter sido” alagada pela Represa de Lajes, mostram que cidades também desaparecem. Outras vão sumindo aos poucos, em um espetáculo lento, mas igualmente doloroso. 

Porém, comparadas com fronteiras, mormente as europeias, que andam ou se dissolvem, as cidades têm, de fato, um caráter de maior permanência, podendo assim concentrar a essência das nações. Com os seus monumentos.

Viu a imagem do Cristo do Corcovado? É Brasiiiil! 

Se um país desaparece – como a Tchecoslováquia, que nos cedeu o bicampeonato em 62 – a ideia de nação sobrevive, não só através da língua, religião, culinária ou do futebol, mas essencialmente por uma cidade que a traduz. Praga, pelo que sei, anda bombando... 

Giulio Argan, historiador e ex-prefeito de Roma, chamou a isso “capitalidade” – possuir uma representação especial e passar a resumir e simbolizar a unidade nacional.

Assim era fácil entender, em 1950, que a Cidade Maravilhosa, em sua marchinha homônima, se afirmasse “como coração do meu Brasil”, não só porque sucessivos governos centrais reforçaram sua capitalidade – Rodrigues Alves e Getúlio Vargas que o digam –, mas porque, se fizerem a conta, naquele ano, quase 5% dos brasileiros moravam no Rio, capital e maior cidade do país. 

Em verdade, foi o último censo demográfico em que isso ocorreu, pois no seguinte, 1960, São Paulo já era a maior cidade do Brasil, que tinha uma nova capital, Brasília. Ou seja, ali, o Rio começa a perder de goleada, mas como, até hoje, ainda rola jogo e o placar não é anunciado por alto-falantes, o fiasco não é evidente. Somente as lesões. E os técnicos, embora sigam sendo xingados, são substituídos só a cada eleição. 

Cada um que aparece só evidencia a falta de tática. Todos jogam atacando, enquanto as defesas abertas solapam, ano a ano, o ufanismo, que como já afirmei, rima com urbanismo, mas está longe de ser solução. 

A retração urbana é como um time que perde jogadores e já estando com nove, exauridos, jogando para uma arquibancada cada vez mais vazia. 

Se observarmos o crescimento das capitais brasileiras, desde a fatídica Copa de 50 até o Censo de 2010, saberemos que a que menos cresceu foi o Rio: exatos 165,35%. São Paulo isolou-se no alto da tabela, com mais de 400%. Completando o G4: Salvador, na 3ª colocação, e Fortaleza, ainda em 4°. 

Claro que crescer, por si só, não é garantia de nada. O índice de violência das capitais nordestinas, por exemplo, é muito maior que no Rio. Mas não crescer é que é sintomático, principalmente, se isso não é levado em conta. 

E assim, rumo ao Hexa, atualizando a marchinha do Tri, poderemos cantar: “200 milhões em ação, pra frente Brasil...”, dos quais, nesta Copa, no Rio, só uns 3%. 

Mas ainda torcendo... nem que seja para conseguir sair da retranca.

* Arquiteto, urbanista DSc