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Sempre aos domingos: Sobre a saída de Parente e as eleições. Ou #vemmeteoro

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De formas e em timings diferentes, alguns veículos da imprensa se anteciparam à saída de Pedro Parente do leme da Petrobras colocando toda a treta política-militar e o mimimi empresarial de lado e focando as discussões no tema que realmente interessa ao país e deveria estar no centro dos programas de governo dos (ainda, gente, ainda!) pré-candidatos à Presidência da República: a política de preços dos combustíveis. 

Praticada desde julho do ano passado com um pragmatismo corporativo e uma insensibilidade política atroz por Parente, o assunto só ganhou destaque depois do locaute-greve dos caminhoneiros das últimas semanas, quando todo o transporte de cargas do país foi paralisado diante do que muitos consideravam um absurdo: a disparada no preço do diesel seguindo as variações internacionais do petróleo, política estabelecida por Parente como imprescindível para a saúde financeira da Petrobras.

Com uma honestidade intelectual rara ou já esperada, dependendo do veículo que fala, “Piauí”, “Época”, “El País” e “HuffPost Brasil”, entre outros, ouviram uma penca de especialistas sobre a conveniência ou não de termos uma política liberal dos preços dos combustíveis num país de desigualdades abissais como o Brasil e onde, mal ou bem, e apesar do fim do monopólio da Petrobras e sua desmobilização de ativos e/ou graças às práticas intervencionistas dos governos petistas, a estatal continua hoje sendo o grande e único protagonista do setor petrolífero no Brasil.

Semana passada, discutia com amigos sobre o tema à luz de um artigo muito interessante, ainda que de viés descaradamente economicista, escrito por Carlos Rydlewski para o “Valor” do fim de semana em que se discutiu por que crises econômicas como a vivida hoje pela Argentina são tão recorrentes em alguns países da América Latina? 

A despeito de erros estratégicos conjunturais (como o desperdício da era de preços elevados das commodities da década passada), a região se debate entre o que o jornal chama de “bipolaridade ideológica latino-americana”, aquele velho racha entre o manjado populismo intervencionista reaça esquerdista, de um lado, e certo surto psicótico liberalizante hiperpragmático direitista, de outro.

A despeito de todo o discurso dos economistas em defesa de reformas estruturantes que nunca acontecem, o fato é que o silêncio ensurdecedor de uma pergunta básica permanece indiscutido: se reformas continuam sendo uma urgência governo após governo, por que o amplo e necessário debate não acontece? E por que quando essas reformas se esboçam, elas são desenhadas de cima para baixo numa clara tentativa ou de reformar para manter tudo como está ou para concentrar ainda mais a riqueza na mão de meia dúzia? 

O próprio “Valor” arranha a resposta num parágrafo lá pelo fim do artigo: “Por fim, é inegável que a América Latina sofre com a ausência de pilares sociais sólidos, o que aumente a suscetibilidade dos países a solavancos econômicos. Prova disso são os indicadores de educação, saúde, competitividade e inovação. Isso sem contar problemas adicionais, como a violência”. E aí está o maior engano ou manipulação (dependendo de quem fala) que se pode cometer quando se discute reformas: a ideia de que medidas/reformas econômicas prescindem do objetivo de melhora social como fundamento básico. Como se economia (que eu tive o prazer de estudar durante um ano na finada Universidade Gama Filho) não fosse uma ciência humana, mas exata, cujo acerto depende apenas da se chegar ao fim da equação descobrindo o valor de X ou Y. 

E o que isso tem a ver com eleições? Tudo. Porque, por parte dos pré-candidatos, o que se ouve é a defesa vazia de reformas do tipo mudar-para-ficar-como-está/ mudar-para-concentrar-e-precarizar. Ou não se ouve nada, na esperança de, não se debatendo o assunto, angariar-se o maior número de votos possível sem desagradar a ninguém. 

O que os candidatos falaram a respeito do episódio dos preços do diesel e da greve-locaute dos caminhoneiros – os que tiveram a coragem de falar, claro - foram platitudes do naipe da “reestatização” da Petrobras defendida por Ciro Gomes (PDT), o “mercado livre” de Flavio Rocha (PRB), a “mezzo-intervenção” defendida por Marina Silva (Rede), passando pela “redução de impostos”, tese bancada tanto por Henrique Meirelles (MDB), quanto por Jair Bolsonaro (PSL). No Brasil, pelo visto, até os neurônios entram em greve por tempo indeterminado. Repito: a quatro meses das eleições gerais. E ainda há quem ache a hashtag #vemmeteoro uma bobagem.