Nesta semana que finda, o Brasil se encontrou com o caleidoscópio de seus temores. Muito além da falta de combustível, muito além do sumiço do chuchu e da alfacinha, e quando a batata frita rivalizou com o caviar, o brasileiro se viu sem governo, sem lei. O governo parece acéfalo de idéias, mergulhado num penoso teatro de gestos e sombras em busca de aplausos aqui, fugindo de apupos ali. Ministros açodados costuravam acordos que se dissolviam no momento em que se apagavam as luzes da TV, onde todos buscavam o brilhareco circunstancial.
Nunca, que me lembre – e estou no fim da sétima década de vida – vi espetáculo tão decadente encenado por políticos a surgir de um museu de cera, com seus sorrisos enregelados, seus meneios alambicados, suas propostas tão distantes de suas promessas. Suas mentiras desnudadas diante da realidade, que lhes foi esfregada na cara, com a repulsa de quem afasta um vômito com um pano de chão.
Perdoe-me, leitora, perdoe-me leitor. Acabo de me lembrar que já havia assistido a espetáculo igual ou pior. Talvez todos, dele, nos recordemos com comiseração. Ocorreu na Câmara dos Deputados na votação do início do processo de impedimento de uma presidente eleita pelo voto. Ali naquela pândega, em que se devia proceder com respeito e dignidade, rompeu-se o véu da legitimidade e abriu-se a porta do Brasil ao mercado.
Como no passe de mágica de carteado de esquina, fórmulas, saidinhas do receituário prêt-à-porter da globalização desumana, foram apresentadas como a grande virada econômica do Brasil. Bestializados, ficamos com a segurança de nossos economistas “born to kill”. Prontos a matar com as espadas do shogunato todos os retardatários em fazer seu “dever de casa”.
Pouco a pouco se elevou, no Planalto Central, o gigantesco orçamento federal, Belzebu de ouro dos deuses da economia a oferecer a água benta de suas sabedorias. Agora, se vai navegar, diziam todos. Não há mares nem ventos que nos impeçam de chegar ao bom porto da civilização moderna.
Nem mais do que 300 luas eram passadas quando Adamastor, gigante das nuvens tenebrosas, soprou um vento esquivo de advertência . “Homens ao mar”, aconselharam os economistas do shogunato, a amolarem suas adagas. E milhões de homens e mulheres foram jogados como náufragos da reforma trabalhista. Empregos se volatizavam, escolas faziam greve, professores viviam de biscates. Na impossibilidade de privatizar a Previdência, a Caixa Econômica e o Banco do Brasil, o shogunato transformou suas adagas em tesouras e passaram a cortar e a cortar, insanamente a cortar. Bolsa Família, Luz para Todos, casa para todos, merenda escolar, farmácia popular...
E o shogunato não cedia. É preciso ter fé no Belzebu. Mas eis que surge o navegador intrépido Donald John Trump, líder da matriz e da meca do shogunato. Voluntarioso, assertivo, resolve reescrever as cartas náuticas e repolariza os polos Norte e Sul. O shogunato entra em gravidade zero. De repente, Donald contribui para o déficit do Belzebu com sobretaxas do aço e do alumínio brasileiros. Investe contra a OMC, adverte que recorrer a ela é punível com relâmpagos e trovoadas. A China, grande compradora de nossas commodities, torna-se o inimigo de todos os navegadores, desde o transatlântico União Européia até os barcos a remo. E o shogunato perde a bússola. Mas, como Pangloss, voltairamente navega em rumo do bom e do melhor. Se já não convém protestar na OMC, que tal entrar na OCDE, clube dos ricos? Mas Donald diz não. O shogunato finge que não é com ele. Ilustres membros da confraria do Belzebu sugerem, inclusive, uma redução de todas as nossas tarifas, de forma unilateral. Evidente prova de nossa modernidade, de nossa virtude multinacional. O shogunato se encrespa. É preciso acabar com a Previdência, é preciso privativar a Eletrobras. Vejam o exemplo da Petrobras, um ponto no centro da curva. Uma vitória inconteste. Uma joia da coroa.
E a Petrobras se recupera, todos assim cremos, de uma política condenável por todos os ângulos. Mas neste processo sua política de preços no mercado interno garroteava os usuários mais pobres entre os seus acionistas majoritários. Discípula fiel da globalização desumana, a empresa, ainda que não privatizada, procede esquecida de sua responsabilidade social. O aumento de preços internos, referenciados quase diariamente ao dólar americano, levou o preço do gás de botijão a alturas inacessíveis para os que dele mais necessitam. Muitas famílias passaram a cozinhar com lenha ou carvão. O mesmo mecanismo, aplicado à gasolina, doeu no bolso da classe média. Quando repetido com o diesel dos caminhões deu no que deu. E ainda não terminou. A demissão de Pedro Parente, voluntária ou não, é um primeiro desdobramento. Tomara o governo se dê conta que não é este o único ajustamento a ser feito numa política econômica visivelmente rejeitada pela sociedade.
A responsabilidade social de uma empresa, pública ou privada, não é uma generosidade. É uma obrigação legal junto ao meio ambiente e à coletividade. Aumentar lucros em detrimento da responsabilidade social pode ser aceito pelo capitalismo selvagem, que sempre acaba provocando as piores reações da população frustrada. Como o Brasil viu, perplexo e atônito, na semana em que comemoramos o Corpus Christ.
* Ex-embaixador do Brasil na Itália ([email protected])