Etiqueta no caos 2: insistindo no processo civilizatório

Diante da repercussão da coluna passada e levando em consideração a quantidade de e-mails e mensagens nas redes que eu recebi de amigos citando situações diversas de falta de educação, de empatia, de consideração e de respeito, vamos colocar no papel o que deveria estar na cabeça de todo mundo. E segue a caravana #nãosejaessapessoa #porummundomaishumano: 

10. Ao volante: poucas coisas transtornam mais um ser humano do que o trânsito. Trânsito é uma invenção demoníaca a que temos que nos submeter seja em transporte público ou privado. Mas tem gente que, ao volante, vira bicho e parece estar possuído por um caboclo tranca-rua-meu-carro-é-do-tamanho-da-minha-genitália. Então é um show de horrores. Há os que fecham cruzamentos (nunca entendi essa lógica, uma das maiores ignorâncias que existem); há os que aceleram sobre pedestres atravessando a rua porque o sinal abriu e ele se acha no direito de “punir” quem demora a atravessar; há os que andam com o som nas alturas obrigando todo mundo a apreciar o seu gosto musical; há os que param em fila dupla em frente ao colégio porque o filhinho tem que ficar NA PORTA; há os que estacionam em qualquer lugar porque, afinal, eles precisam deixar o carro perto; há os que estacionam sobre a calçada, como se calçada não fosse para pedestre; há os que andam a 10 km por hora no lado esquerdo da pista dupla como se tivessem comprado a carteira de motorista; há os que estão em décimo lugar na fila, mas buzinam no segundo seguinte ao sinal ficar verde; há os que acham que setas são objetos de decoração; enfim, trânsito é uma prova cabal de que a humanidade não deu certo. 

11. Motos: ou como eu não me importo de morrer por orgulho. Nunca entendi porque motoqueiros, em sua imensa maioria, são irresponsáveis no trânsito. Tente jogar uma seta e mudar de pista com um motoqueiro a dois quilômetros de distância e ele passará ao seu lado te xingando porque você se atreveu a cruzar de pista antes que ele passasse. E como são corporativos, a possibilidade de um motoqueiro cometer uma barbaridade contigo e cair da moto pode resultar num aglomerado de outros motoqueiros dispostos a te linchar. Motos em calçadas ou passarelas deveriam resultar em prisão perpétua.

12. Não é porque você anda de bicicleta que você é obrigatoriamente uma pessoa legal. Bicicleta na calçada deveria dar dez anos de prisão. Bicicletas na ciclovia também devem observar as faixas de pedestres e parar quando alguém for atravessar. Pedestres, por sua vez, precisam ser responsáveis e atravessar nas faixas e passarelas. Cada um com seu cada um.

13. Há coisa mais torturante do que grupo de Whatsapp? Há possibilidade de se manter a dignidade num grupo de Whatsapp? Não. Mas é preciso tentar. Um bom começo é entender que um grupo de Whatsapp é para ser fórum de discussões relevantes, importantes, curiosas ou engraçadas. Não é para trocar ofensas em público nem para mandar correntes de qualquer tipo: das políticas às de Nossa Senhora de Qualquer Coisa. E ao contrário do que manda a cortesia ao se encontrar com um desconhecido com o qual você quer ser gentil, o grupo de whatsapp dispensa aqueles intermináveis bom dia, boa tarde e boa noite com imagens de pássaros voando ou xícaras de café. Não seja essa pessoa jeca. 

14. Nos bancos públicos. Seja de dois ou mais lugares – e a dica vai especialmente para homens heteros, mas também se aplica a mulheres -, não se sente com as pernas arreganhadas. Você não tem esse volume todo entre as pernas, ainda que pense assim. Especialmente em lugares indignos, como assentos em aviões, sentar-se arreganhado é um incômodo para quem está ao lado. Pense no outro. 

15.  Na academia, não monopolize os aparelhos. Não ocupe o leg press escrevendo no celular ou stalkeando alguém no Facebook. Se a esteira possui tempo máximo de 30 minutos, não a ocupe por 31 minutos. E divida os aparelhos. Não faça cara de bunda quando alguém pede para dividir um aparelho contigo. Seja gentil. 

16. Na fila do aeroporto – Raios-X, passaporte, imigração, embarque, etc. – não empate o fluxo com a atenção fixada no celular. Não tem nada mais irritante. Cumpra os procedimentos todos e depois, já no portão de embarque, uma vez que todo o avião e ônibus atrasa no Brasil, dedique-se com afinco ao seu celular.

17. Os ubíquos celulares. Não seja essa pessoa que está numa mesa com amigos com a cara enfiada no celular. Converse, confraternize, aproveite seu tempo, que acaba rápido, com as relações reais. As virtuais devem ser encaradas com a utilidade do contato que não pode ser real, físico. Mas se ele é físico, então que seja físico. Não há nada mais deprimente que casais sentados numa mesa de jantar, cada um no seu celular. Grupos de amigos onde dois conversam e os outros seis estão no celular. Famílias que não trocam uma palavra porque estão todos no celular. Quando você se der conta, o tempo passou, a relação se desgastou, o mundo mudou.  

18. Por fim, falando nisso, perceba que o mundo não é mais aquele cenário onde lugar de mulher era na cozinha, lugar de preto era na senzala e lugar de bicha era no armário. Todo mundo ou se empoderou ou está em processo de empoderamento. Cuidado com as piadas de bicha porque seu filho pode ser gay. Não há nada mais “Bolsonariano” do que mesa de homem e mesa de mulheres. A maioria da população do país onde você nasceu é parda ou preta. Não faça piada com oprimido, a maior prova da falta de inteligência de um ser humano. Faça piada com o opressor. Seja uma pessoa melhor para você, para sua família, para seus amigos, para seus vizinhos, para o mundo. Gentileza gera gentileza. MELHORE. #NÃOSEJAESSAPESSOA