Sentidos ressentidos

O desemprego caiu. Será mesmo? Bom, se levarmos em conta que parte do índice oficial é expurgado pelo “desemprego por desalento”, que somava 1,9 milhão em 2012 e passou a ser de 4,3 milhões em 2017, segundo o IBGE, esse índice, que é o indicador da quantidade de pessoas que desistiram de procurar emprego, por não achá-lo, a afirmação com que aqui iniciamos este artigo assume os ares de peça ficcional. 

Em outras palavras, a frase “o desemprego caiu” faz sentido a partir do momento em que compõe uma narrativa política dos ocupantes do poder, os quais já demonstraram cabalmente que não têm problemas em omitir, ou mesmo em mentir, se a realidade não lhes for satisfatória. Mais parecem, esses que, como os classificou Raimundo Faoro, se acham os “donos do poder” (social), a personificação daquele famoso alfaiate que, se o terno ficou curto, em vez de ajustá-lo, tenta cortar as mãos do cliente. 

A realidade dos discursos oficiais, infelizmente, não faz muito sentido para a maioria das pessoas, e essa relação entre as narrativas oficiais e “realidade real” de todos nós, por assim dizer, é tênue e volátil, para dizer o mínimo. Assim, a realidade das pessoas do povo vai perdendo, por sua vez, os sentidos lógicos que a faria crível e compreensível, o que só interessa à casta dominante. 

Esses discursos são proferidos pelas narrativas das elites dirigentes e seus porta-vozes, não raro, e assim o fazem de modo consciente, assumem o papel discursivo de dar, conforme o definiu o economista Paulo Nogueira Batista Jr., uma aparência local à defesa dos interesses estrangeiros. Em troca recebem cargos, altos salários e outras benesses (nem sempre publicáveis). Esse pessoal, muitas vezes classificado como “consultores” ou “especialistas de mercado”, atuam para enquadrar os consensos internacionais da moda ao que nossos “comandantes” desejam, como mostrou Nogueira Jr., o que, por conseguinte, no mínimo dificulta, em muito, soluções nacionais genuínas, ou seja, adequadas aos nossos problemas.

Os sentidos sociais dos discursos políticos vão criando a realidade, ora do modo como ela é, em outros momentos, como os grupos dominantes gostariam que fossem. O filósofo e sociólogo argentino Eliseo Véron (1935-2014) afirmou que ideologia, qualquer que seja, não é apenas, nem prioritariamente, um repertório de conteúdos, senão uma espécie de gramática para o engendramento de sentidos sociais. Em outras palavras, o sentido social de um discurso, de um fato, do que for, não é neutro, posto ser o resultado dos interesses daqueles que o pensaram, definiram, divulgaram e buscam calcar suas ações e políticas públicas com base nesses sentidos. A disputa pelas narrativas do poder está mais viva do que nunca. 

Pensar o mundo, e nele agir, é criar sentidos e ações políticas. Para o escritor brasileiro Cristóvão Tezza pegamos nacos de realidade, que não têm sentidos por si mesmos, senão por nossas interpretações, e propomos uma hipótese existencial de sentido para os outros, que se na fala de Tezza vêm sob o código comum da linguagem e das convenções de gênero (realismo, fantasia etc.), para os efeitos deste artigo, chegam pelas disputas, narrativas e executórias da política.

Buscamos, aqui, no Rio de Janeiro, uns poucos, como se diz, gatos pingados, a implementação de uma nova narrativa que venha do seio popular e instaure mais horizontalidade nas decisões e ações políticas, quebrando a verticalidade que não nos tem sido proveitosa. Para tanto, propomos um “Plano de Gestão Cidadã”. Democracia se faz com mediação de conflitos, o que quer dizer que não é pasmaceira, mas não se faz com ódio; com este, o que temos é barbárie que vemos. 

O momento brasileiro é de extrema gravidade, muito mais do que alguns parecem estar dispostos a admitir. O ódio entre as partes está imperando, a intolerância geral está crescendo e as ações estão se radicalizando. Passadas as eleições deste ano, porque aparentemente até lá não conseguiremos reverter esse quadro desolador, há que refletirmos seriamente sobre novos caminhos para este país, sob o risco de nos perdermos tanto que demoraremos décadas para nos recuperarmos, e a situação social se parecerá com aquela máxima galhofeira que diz que não há o risco de melhora! Não podemos deixar isso acontecer.

* Geógrafo e pós-doutor em Geografia Humana