Caldo de galinha e prudência não fazem mal

A inflação esfola; o câmbio mata. Os economistas já aprenderam isso, ao longo da História. Ainda mais para um país que não tem sua moeda ainda conversível no mercado internacional. Já se pode trocar reais por euros em Paris, Madri ou Lisboa, e também por dólares em Miami, porém a cotações bem desfavoráveis para quem deseja se desfazer da moeda brasileira. Nas cidades argentinas ou no Paraguai, o câmbio é mais favorável para o real, e não tanto em Santiago do Chile. Mas o real está muito longe de ser uma moeda conversível, embora o Brasil esteja entre as dez maiores economias do mundo. Como se dá a conversibilidade? Existe um componente de confiança que não é fácil de mensurar. Troca-se com facilidade dólares americanos, euros, ienes, francos suíços, coroas dinamarquesas, suecas e norueguesas, mas não ocorre o mesmo com o yuan chinês, o rublo russo, o real, o rande da África do Sul, a lira turca, a rúpia indiana etc.

Economias sem moedas conversíveis precisam do que na linguagem corriqueira eram chamadas de moedas fortes para transacionarem com o resto do mundo. Obtêm essas divisas exportando mercadorias e serviços, o que inclui a recepção de turistas estrangeiros. Ou atraindo investimentos e fazendo empréstimos. Só assim pagam suas contas em outras moedas (importações de bens e serviços, gastos de turistas brasileiros no exterior, remessa de lucros dos investidores, amortização de empréstimos etc.).

A paridade do real em relação a essas moedas deveria ser resultado do fluxo financeiro decorrente dessas transações. Se no entra e sai sobram dólares, euros e outras moedas, o real deveria se valorizar; se o fluxo é negativo, a moeda nacional deveria se desvalorizar. Mas não é bem assim. O chamado dólar pronto, de entrega imediata, é só uma pequena parcela desse mercado. O câmbio geralmente sofre mais influências de expectativas e transações relacionadas ao futuro do que em relação ao movimento do mercado à vista.

No Brasil, essas influências são exacerbadas, talvez pelo nosso histórico de incertezas e maluquices. Nem aqui nem na China o bom senso é o que mais prevalece, mas nossa dose de contrassenso supera por demais a média. Os agentes econômicos se defendem, sabendo que o câmbio mata. Daí que, em um momento como o atual, em que o mundo anda esquisito (um dia se consegue a paz entre as Coreias, no outro põe-se mais lenha na fogueira do Oriente Médio) e que há um movimento de “normalização” das políticas monetárias nos países desenvolvidos, ocorre essa sacudida no mercado de câmbio, o que, no caso do Brasil, é agravado por uma situação política doméstica pândega.

No entanto, felizmente a economia brasileira não se encontra diante de uma situação vulnerável nas contas externas. O Banco Central administra um volume de reservas de US$ 380 bilhões. O comércio exterior gera um saldo acima de US$ 50 bilhões por ano, e o dinheiro que entra sob a forma de investimentos mais do que cobre a saída de capitais especulativos.

O câmbio desvalorizado tornará mais caros os insumos importados pela economia brasileira. E, nesse ambiente conturbado, não se pode dar pretextos para movimentos especulativos arrepiantes. O Banco Central não tinha alternativa a não ser dar uma parada no ajuste das taxas básicas de juros. Elas continuam altas considerando-se a inflação esperada para o ano e o moroso processo de recuperação da economia, mas há que se ter também uma prudente distância em comparação aos juros básicos americanos. Se essa distância diminuir muito, os capitais se mudam para Nova York, porto mais seguro, ou mais previsível.

No quadro atual, não se deve esperar taxas básicas de juros abaixo de 6% ao ano, e talvez se possa apostar em uma paridade dólar x real em torno de R$ 3,60, quando os ânimos se acalmarem um pouco. 

A vida segue. Não dá para ficar olhando para trás o tempo todo.

*O jornalista não é Polyana, mas ainda acredita no futuro