Brasil jamais será fascista

Na Universidade de Salamanca, em 12 outubro de 1936, o escritor Miguel de Unamuno teve seu discurso de paraninfo interrompido pelos gritos de um general de extrema-direita: “Viva la muerte!”, exclamou Millán-Astray, fidelíssimo representante da falange fascista de Franco. Seu grito era coerente com as práticas de sua gentalha. Na Espanha de Franco, como bem lembrou Manuel Bandeira, o poeta Federico Garcia Lorca foi preso em sua casa, em Granada, e fuzilado num barranco no meio da rua. Jovens estudantes eram mortos barbaramente num suplício medieval: o garrote vil. Aqui, na ditadura militar, o militante Eduardo Leite, o Bacuri, de 25 anos, foi torturado até a morte por 109 dias e teve as orelhas decepadas, os olhos vazados e os dentes arrancados.

Assim é o fascismo. Preto sempre foi sua cor favorita, na SS de Hitler, na falange de Franco e nos camisas negras de Mussolini. Fascistas não gostam de vermelho. É uma cor muita viva para a sensibilidade rasa. Também odeiam o conhecimento. Eles vivem na obscuridade e cultivam a ignorância. O iluminismo não serve aos seus propósitos. Gente razoavelmente informada não se deixa levar pelas palavras de ordem da extrema-direita. Por isso, mesmo, o marechal Goering, um dos chefes do nazismo, dizia com frequência: “Quando ouço falar de cultura, saco logo o meu revólver!”. 

Quem conhece a história, não se espanta com a faixa que foi colocada na encosta do Corcovado, no sábado, dia que marcou os 200 anos do nascimento de Karl Marx. Como acontecia  nos anos 30, lá estava a advertência dos neofascistas: “O Brasil jamais será vermelho. Fora comunistas.”  No rodapé, a faixa trazia os nomes de FHC, Lula e Dilma. Conclui-se que os simpatizantes do ex-capitão Bolsonaro são mesmo ignorantes. Não têm a mínima ideia do que seja o marxismo. Coitado de Marx, 200 anos depois, ele continua muito pouco lido e temido por gente que só o conhece de nome. FHC, vá lá, estudou marxismo por pura curiosidade intelectual. Mas Lula e Dilma nada têm a ver com o famoso barbudo. Vai aqui uma pequena contribuição para que a turma do ódio conheça um pouco de Marx. Entre 1860 e 1865, Jenny e Laura, as duas filhas mais velhas dele com Jenny von Westfalen, pediram ao pai que respondesse um questionário sobre suas preferências. Eis as respostas de Marx: 

- A qualidade que mais aprecia: “Nas pessoas, a simplicidade; nos homens, a força; nas mulheres a fraqueza”. 

- Traço característico: “A unidade do objetivo”. 

- Ideia da felicidade: “A luta”. 

- Ideia da infelicidade: “A submissão”. 

- Defeito que desculpa mais facilmente: “A confiança concedida sem refletir”. 

- Defeito que lhe dá mais aversão: “O servilismo”. 

- Antipatia: “Martin Tupper”. 

- Ocupação preferida: “Frequentar os sebos”. 

- Poetas preferidos: “Shakespeare, Ésquilo, Goethe”.

 - Prosador preferido: “Diderot”. 

- Herói preferido: “Espártaco, Kepler”. 

- Heroína preferida: “Gretchen”. 

- Flor preferida: “O louro”. 

- Cor preferida: “O vermelho”. 

- Nome preferido: “Laura, Jenny”. 

- Prato preferido: “Peixe”. 

- Máxima preferida: “Nada do que é humano me é estranho”. 

- O lema preferido: “Duvidar de tudo”.

 Alguns esclarecimentos. Ao se referir à fraqueza das mulheres, Marx falava do tempo e do ambiente em que vivia. Sua mulher, Jenny, que cuidava dos filhos e da casa, sofreu o diabo com as dificuldades financeiras do marido e tinha a saúde frágil. Martin Tupper era um poeta inglês da época, autor de versos pobres. Gretchen é Margarida, a paixão de Fausto, na obra de Goethe. E “nada do que é humano me é estranho” é a tradução da frase latina do poeta romano Terêncio. Espártaco foi o gladiador que liderou a revolta dos escravos em Roma entre 73 e 71 antes de Cristo. O astrônomo e matemático alemão Johannes Kepler é considerado um dos pais da revolução científica do século 17.  Quanto a Shakespeare, o bardo inglês era objeto de culto pela família Marx. As filhas Laura, Jenny e a caçula Eleanor conheciam sua obra de cor. 

Fiquem sabendo, portanto, os neofascistas responsáveis pela faixa na encosta do Corcovado, que Karl Marx não combina com obscurantismo e ignorância. Ao contrário, é símbolo de cultura e inteligência.