São todos milicianos?

A prisão de mais de cem pessoas em uma festa promovida por milicianos em Santa Cruz foi resultado da retomada de uma política que tinha sido abandonada. Grupos paramilitares cresceram na Zona Oeste e na Baixada Fluminense nos últimos anos. A afirmação de que o combate às milícias será incessante daqui para frente deve ser valorizada.  

Mas alguns pontos deveriam ser questionados e não naturalizados. 

1. Mortos não são um resultado desprezível. A frase “quem resistiu teve a resposta necessária” não é aceitável vinda de uma autoridade de segurança. Evitar confrontos deve ser o objetivo máximo em uma incursão em uma festa, em que centenas de pessoas estavam aglomeradas.  

2. Todos que estavam na festa eram “milicianos”? As fotos, feitas pela própria polícia, em que dezenas de homens aparecem deitados no chão, como se estivessem num presídio em rebelião, produzem um impacto. Mas como foi a negociação e seleção dos que seriam presos? Havia mandados de prisão? Os que foram presos eram acusados de quê? Não havia mulheres na festa?  

3. Há relatos de que a festa era pública e que muitos presentes não eram relacionados às milícias, embora estivessem em uma festa patrocinada por milicianos. Da mesma forma que rapazes de favelas que frequentam bailes funk promovidos por traficantes não são necessariamente envolvidos no crime. É correto prendê-los e afirmar que “são milicianos” por estarem em uma casa de festas localizada na área central de Santa Cruz? Vidas podem ser marcadas talvez para sempre.  

4. Em nome de quê? De um gesto de demonstração de força e eficiência — mas marcado por possíveis arbítrios e ilegalidades —que podem colocar em risco exatamente a consistência de políticas para desarticulação de grupos de milícias.  

5. Hoje sabemos que atividades econômicas e políticas dessas organizações precisam ser investigadas e desmobilizadas de forma estrutural, permanente e de longo prazo.  

Quando há fatalidades e prisões em massa, as instituições de segurança, o MP e o Judiciário, devem à sociedade esclarecimentos sobre as ações e fatos que conduziram a esses resultados. Isto é mais central quando o estado experimenta intervenção federal. Acima de tudo fica uma questão para todos nós, pesquisadores, defensores de direitos e jornalistas: vamos aceitar que algumas vidas importam menos?   

*Coordenadora do Observatório da Intervenção (CESeC/UCAM)