Quando um avião comercial de passageiros sofre uma queda, morrem dezenas de pessoas ao mesmo tempo e os jornais noticiam em manchetes, sensibilizando e chocando a todos. Por outro lado, quando ônibus, caminhões, automóveis e motos são envolvidos diariamente em acidentes de trânsito, os jornais destacam alguns deles, e as pessoas consideram como fatos corriqueiros.
A queda ede um avião comercial é um evento raríssimo, cuja probabilidade de ocorrência é inexpressiva. Em 2017 ocorreram apenas 5 acidentes com aviões comerciais em todo o planeta, com 44 mortes, ou um acidente a cada 7.360.000 voos.
Por outro lado, no trânsito e nas rodovias, os números brasileiros são desesperadamente outros, que põem nosso país como o 5º do mundo em mortes no trânsito, segundo a OMS, atrás de Índia, China, EUA e Rússia. As estatísticas oficiais mostram que são mortas, no Brasil, em média, 47 mil pessoas, por ano, devido a acidentes de trânsito e outras 400 mil pessoas ficam sequeladas. São impressionantes 129 mortes por dia; uma morte a cada 11 minutos, em média. Essa quantidade de pessoas equivale à queda de um Boeing 737-300, lotado, por dia.
Segundo a Polícia Rodoviária Federal, as principais causas de acidentes com mortes são: falta de atenção (31%), velocidade incompatível (22%), ingestão de álcool (16%), desobediência à sinalização (10%), ultrapassagens indevidas (9%), sono (7%) e outros (5%). Respeito essa classificação, mas, em termos técnicos, entendo que esses acidentes fatais podem ser atribuídos a quatro razões fundamentais: estradas malconservadas, sinalização deficiente, falta de policiamento e fiscalização e gerenciamento de tráfego ineficaz.
No caso das rodovias e vias urbanas, a primeira providência a ser tomada passa pela engenharia, uma vez que existe a necessidade premente de restaurações nos pavimentos, correções de traçados, implantação de sinalizações verticais e horizontais, colocação de semáforos, faixa de pedestres e obstáculos para diminuição da velocidade em pontos perigosos e melhoria das calçadas, entre outras ações. Além disso, existe a urgência de investimentos em educação no trânsito, desde o ensino fundamental, com cursos para condutores e pedestres, bem como a implementação de ações rigorosas de fiscalização e punição aos causadores de acidentes e aos órgãos públicos omissos. Em termos financeiros, as mortes no trânsito custam ao país R$ 56 bilhões por ano, segundo o Observatório Nacional de Segurança Viária, que poderiam ir para a construção de 18 mil quilômetros de rodovias de pista simples, com acostamento, ou para a restauração de 47 mil estradas.
Diante da magnitude da insegurança no trânsito, considerada como uma questão de saúde pública, a redução das mortes e acidentes deveria ter por base um plano plurianual apolítico, com visão sistêmica em infraestrutura de transportes e com orçamento garantido por lei, para a recuperação, duplicação e conservação de rodovias, construção e reativação de ferrovias e hidrovias, construção de portos, expansão das concessões privadas e utilização do modelo de parceria público-privada.
No Rio, a situação também é trágica. Segundo o Detran-RJ, em 2017, a cada 5 horas, em média, uma pessoa morreu por algum tipo de acidente de trânsito, e, a cada 14min, uma pessoa ficou ferida.
Sem dúvida alguma, trata-se de um problema de difícil e demorada solução, mas as experiências de diversos países mostram que a redução de acidentes é possível, com ações precisas, planejadas e competentes. Cada dia de atraso para o início das ações citadas para evitar acidentes em nossas rodovias e vias urbanas corresponde, em média, à perda de cerca de 130 vidas humanas. Como os políticos e governantes viajam somente em aviões, eles baseiam-se apenas nas tranquilizadoras estatísticas do transporte aéreo e desprezam a implementação de planos para a recuperação das rodovias e vias urbanas, deixando para os cidadãos comuns o ônus da dor pela morte de seus entes queridos que, na verdade, são aqueles que os elegeram.
* Doutor em Engenharia de Produção pela Coppe/UFRJ, mestre em Transportes pelo IME e professor da FGV