Luther King: a vitalidade de um sonho

Há cinquenta anos, em Memphis, Tennessee, um homem foi morto a tiros na varanda do hotel em que se encontrava hospedado.  O homem era negro.  O homem tinha um sonho. Liderava um grupo de homens e mulheres que aumentava a cada dia e se convertia em multidão. Organizava eventos e marchava silenciosa e pacificamente em protesto contra a violência racial e o desrespeito aos direitos humanos em seu país. Mataram o homem, mas não o sonho. O homem se chamava Martin Luther King Jr.

 Quando esse pastor batista e doutor em Teologia começou sua caminhada em prol da igualdade racial e da paz, o racismo em seu país era lei e não crime. Uma lei que cavava uma fenda profunda na sociedade estadunidense, mantendo os negros separados dos brancos nos transportes públicos, nas instituições de ensino, nos restaurantes, banheiros. O sonho do pastor negro era que essa discriminação tivesse um fim de forma pacífica e não violenta. 

Na origem desse sonho de paz e liberdade está o gesto de uma mulher: Rosa Parks, aquela que um dia, ao voltar do trabalho em um ônibus, sentada na parte do veículo proibida aos negros, recusou-se a ceder seu lugar a um homem branco. Foi presa e penalizada, mas seu gesto de desobediência fez com que cinquenta líderes da comunidade afro-americana, chefiados pelo então quase desconhecido pastor Martin Luther King Jr., reagissem à violência contra ela cometida.  

Em 1963, o pastor negro continuava seu movimento, reivindicando pela igualdade de direitos de todos, pelo fim da discriminação racial e pela paz. Suas marchas eram cada vez maiores em volume e em consistência.  Naquele ano a marcha sobre Washington, a capital do país, convocava 250 mil pessoas.  Aí Luther King falou de seu sonho. 

 O sonho da igualdade e da liberdade. O sonho de Luther King era recheado de liberdade e comunhão. Sonhava em fazer chegar mais rápido “o dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar-se as mãos e cantar...” Sonhava o sonho que sonhou também Jesus de Nazaré e tantos profetas antes dele e tantas testemunhas depois dele.  

No dia 4 de abril de 1968, um tiro penetrou no rosto do pastor negro. Matou o homem, não o sonho.  King entrou para a história não apenas pelo que fez, mas também e talvez principalmente pelo que sonhou: um mundo onde ninguém seja discriminado por raça ou cor de pele; onde todos tenham direito de voto e acesso a empregos e serviços públicos; possam dizer livremente aquilo que creem e praticar o que acreditam. Um mundo onde a paz não seja apenas a ausência de guerras.  

O sonho do Dr. King continua, mais vivo que nunca. Continua nos grupos afro-americanos que lutam por igualdade.  Faz-se visível nos jovens migrantes, chamados de “dreamers”, que reivindicam o direito de sonhar no país em que escolheram viver uma vida melhor.  

Nestes cinquenta anos, muita coisa caminhou, e o sonho se fez parcial realidade. O país do pastor King teve a alegria de votar e aclamar um presidente negro na Casa Branca. Pelo mundo, Nelson Mandela saiu da prisão e deslanchou o movimento de reconciliação nacional na África do Sul. Porém, o racismo não morreu. Fez-se presente nos diversos episódios racistas acontecidos nos Estados Unidos, mas também no Brasil, onde a vereadora Marielle Franco foi assassinada por defender os jovens negros das comunidades de sua cidade. 

Por isso, celebrar os 50 anos do assassinato de Martin Luther King não é apenas recordar sua exemplar biografia, mas tratar de inspirar-se em seu testemunho e nele aprender. Importa ouvir hoje o que sua voz trovejante e lúcida dizia há 50 anos.  E continuar sua luta, carregados pelo sonho que faz com que a morte de um seja semente que frutifica na vida de muitos.

*Teóloga, professora do Dep. de Teologia da PUC-Rio