Uma guerra disfarçada de combate às drogas

Vivemos dias de tristeza, dias de choro, dias de mães enterrando seus filhos, dias de medo. São seis meses seguidos que a Rocinha vive em guerra, mas essa violência é muito mais antiga e teve início na década de 1980, justamente pelo vazio deixado pelo poder público desde as formações das favelas no Rio de Janeiro. Passaram-se quase 40 anos e essa guerra disfarçada de combate às drogas matou muita gente, tirou muitos sonhos e destruiu muitas famílias. 

Hoje, vivemos o resultado de uma política falida de combate às drogas que, na verdade, é um extermínio da população favelada. Estão nos matando cada vez mais. Foram mais de 50 mortes na Rocinha em seis meses - nove mortos em três dias. Não se trata de operação, mas sim de uma chacina. 

O estado continua a investir no confronto armado. Criou as UPPs, investiu milhões de reais e elas faliram. Agora, investe na intervenção militar, operações desastrosas e midiáticas. Gastam milhões com armas, mas não gastam nada com melhorias nas favelas. Tudo sem resultado.  Há mais de anos que não se coloca um prego na Rocinha, desde que as obras do PAC foram abandonadas.  

As armas e drogas não são feitas aqui. Elas atravessam as permeáveis fronteiras do Brasil e voam até de helicóptero, ficando impunes os que a carregam. Mas o problema só vem a ser combatido quando a droga chega na favela. 

As drogas geram bilhões de reais por ano, mas se engana quem acredita que esse dinheiro  fica nas favelas. Desse bolo, nós ficamos apenas com a parte da violência. Somos atingidos e, quando mortos, ainda somos taxados de bandidos. Sofremos perdendo nossos jovens, nossa liberdade, nosso direito de ir e vir. Dormimos e acordamos com os tiros e não temos o direito de sair para estudar ou trabalhar em segurança. O sofrimento na favela é ainda maior, além da violência, convivemos em um espaço sem acesso aos direitos básicos de sobrevivência.

Somos um povo alegre, com forte expressão cultural, criativo, unido, de origem humilde e feliz. Chega de violência. Deixem-nos viver. Deixem-nos sonhar. Parem de nos matar.

*Professor e morador da Rocinha