O planeta pede socorro

Na semana seguinte ao assassinato da vereadora Marielle Franco, é difícil escrever sobre a sustentabilidade do planeta. Na verdade, neste momento político, poucos assuntos despertam algum interesse – são atentados diários e avassaladores de diferentes formatos das forças conservadoras. Resistindo, tocamos nossa vida, inclusive com um olho no futuro. 

O homem mexe com a Mãe Natureza sem conhecê-la bem, em primeiro lugar. Por sorte, ou por conta da ciência, a maioria dos problemas ambientais – como a degradação do ar, água, solos, florestas, oceanos, recursos minerais – tem sido ou pode ser revertida de alguma maneira, tipicamente envolvendo custos muito elevados. Com dinheiro, os países ricos têm uma qualidade ambiental, em muitos aspectos, melhor que a dos países pobres. Ao mesmo tempo, a produtividade de todos os setores econômicos cresce de maneira impressionante – agricultura, indústria, energia e muitos outros. Isso ajuda a conservar recursos. No entanto, parece óbvio que estamos numa trajetória declinante. Avançar na produção, na ciência e na tecnologia pode prolongar nosso consumo, mas há de ter um limite. 

O aquecimento global pode ter impactos simplesmente inimagináveis. A elevação dos níveis do mar é o lado ameno das ameaças. Secas, inundações, ventos, incêndios, geadas, ondas de calor, mudanças das correntes marinhas, elevações absurdas de temperatura (por exemplo, cerca de 8 graus médios na Amazônia, o que obviamente levaria à extinção da floresta) – será definitivamente um outro mundo. E a mesma ciência que tem inventado soluções para todos os problemas ambientais está pedindo arrego: mexer com o clima é realmente uma péssima brincadeira. 

Existe um aspecto muito perverso e menos discutido sobre as mudanças climáticas. Não bastasse ser incerto e tão ameaçador, ele é particularmente alarmante para os países e para as pessoas pobres. Miami é uma das cidades mais vulneráveis às mudanças do clima. Ficou preocupado? Imagine, agora, que são igualmente vulneráveis várias cidades costeiras de Bangladesh, China, Haiti e diversos países do sudeste asiático. No Brasil, fora Santa Catarina, que deverá sofrer cada vez mais com chuvas torrenciais e inundações, preocupam as secas e aumentos de temperatura na Amazônia e no Nordeste. Como castigar ainda mais essas regiões pobres? Nas cidades, são as favelas e regiões de baixada as mais vulneráveis. Essa gente vai correr para onde? Não será como foi o recente êxodo da população de Miami antes do furacão Irma. As chuvas catastróficas do verão de 2012 em Teresópolis nos lembram isso. 

Existe muita incerteza sobre a intensidade e os efeitos das mudanças do clima, mas não sobre sua ocorrência. Testar a capacidade limite de resiliência da Terra às mudanças do clima não parece uma boa aposta. Enquanto não descobrem um novo planeta para migrar em caso de fracasso, parece boa ideia que as novas gerações cuidem bem deste planeta. 

A energia solar começa a se tornar viável economicamente. Um golaço aos 48 minutos do segundo tempo. Mas até o mundo girar sem emitir os gases causadores do efeito estufa e o consequente aquecimento global, vai levar um bom tempo. O suficiente para atingirmos patamares aterradores de variações climáticas. Mesmo com o uso de energias limpas, novamente se apresenta o dilema da sustentabilidade de longo prazo. 

Finalizo lembrando que o assunto pode parecer coisa de rico. Mas nem isso é verdade. Pessoas pobres têm um olho no futuro, às vezes de forma mais consistente, alimentando esperanças de romper seus paradigmas de pobreza. A ética em relação ao Planeta Terra, e implicitamente a todas as espécies vivas e às condições físicas que permitem nossa própria existência, não parece passar pelo nível de renda das pessoas. Talvez até o contrário, são os ricos os maiores poluidores do planeta, consumidores de energia e matérias-primas, e é o seu consumo que ameaça a sustentabilidade. Enquanto todos amamos bichinhos, plantas e a natureza, poucos abrem mão de comer carne, utilizar veículos propulsados a combustíveis fósseis, de gastar água e energia desnecessárias e viajar de avião quando a renda permite. Como mudar hábitos básicos de consumo? Que diferença faz cada um de nós? 

A reversão do aquecimento global e a consequente mudança do clima da Terra começa com o bom entendimento e uma conscientização geral do problema. Pessoas e países pobres podem não ter fôlego para lidar com isso no presente, mesmo sendo os mais vulneráveis ao problema. Pessoas e países mais ricos têm essa obrigação. Mas não se trata de (apenas) apontar dedos para o presidente Trump, os americanos e os europeus. O planeta é um só, tragicamente mais de uns que de outros, mas segue único. Enquanto não aparece um melhor... 

*Ex-economista líder de Meio Ambiente do Banco Mundial e ex-secretário de Desenvolvimento Sustentável da Presidência