Crime contra o povo mineiro

No excelente artigo “O precioso negócio da Codemig”, publicado no “Diário do Comércio” de Belo Horizonte, o jornalista Mauro Werkema, que também participou do desenvolvimento mineiro, administrando o Palácio das Artes, especificou até com detalhes por que essa empresa não deve ser, de qualquer maneira, retalhada para ser vendida, justamente naquilo que é mais precioso para Minas Gerais. Entretanto, ao especificar a riqueza que é a Codemig para o estado, esqueceu de citar, entre as empresas absorvidas por essa companhia – Camig, Casemg, Metamig e Hidrominas – a Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais (Cdimg), que foi uma das responsáveis pelo enorme desenvolvimento mineiro nos anos 70/80, quando, ao lado do Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas Gerais (Indi), da Cemig, do BDMG, da antiga Telemig e da Copasa, conseguiu produzir taxas de crescimento e desenvolvimento do Produto Interno (PIB) mineiro de 11% ao ano, em média, que representou duas vezes o PIB total brasileiro. Foi trabalho conjunto, e não milagre, porque milagres não existem em economia. 

A Cdimg, só para exemplificar, escolheu e implantou os distritos industriais de Extrema; Pouso Alegre; Itajubá; Santa Rita do Sapucaí; Uberaba I, II, III e IV; Uberlândia; Juiz de Fora I, II, III e IV; Rio Pomba; Santa Luzia; Vespasiano; Montes Claros; Governador Valadares e outros mais. A absorção da Cdimg pela Codemig foi um dos componentes do desastre mineiro, que vem impedindo nosso estado de poder atrair e localizar empresas nacionais e internacionais que não possuem espaços industriais localizados estrategicamente e com total infraestrutura para edificar seus empreendimentos que produzem receitas de impostos e empregos. 

Como economista, participante ativo do desenvolvimento mineiro pela Cdimg, não me canso de denunciar e citar a Codemig como uma das assassinas do desenvolvimento mineiro, porque absorveu a Cdimg, mas não fez o que ela fazia, colocando o estado com um elemento a menos em relação a outros estados do país. Porque existiu um distrito industrial totalmente feito e implantado, é que a Mercedes Benz veio para Minas. Mas por falta de outros semelhantes, e de um trabalho político eficaz, perdemos todas as outras empresas automobilísticas estrangeiras que vieram para o Brasil e foram se localizar em São Paulo, Goiás, Bahia, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Pernambuco.  

Com a recriação da nova Metamig, como sugeri em vários artigos assinados, essa nova empresa ficaria encarregada de capitalizar a nova Cdimg junto com o estado, fazendo-a entrar na economia mineira com muito mais vigor e competência, voltando a realizar o apoio mineiro para localizar inúmeras empresas nacionais e internacionais. Aí, sim, completando como fez no passado os trabalhos do Indi, e do BDMG, aproveitando os estudos econômicos da Fundação João Pinheiro.

 A terceira empresa de economia mista que poderia ser fundada a partir da subdivisão da Codemig, a falada Codemge, ficaria com todos os centros de convenções de Belo Horizonte e Juiz de Fora e comandaria também os estudos de prospecção das chamadas “terras raras”, incentivaria a chamada “Economia criativa”, ficaria com as explorações das águas minerais de Caxambu, Cambuquira, Lambari e Araxá, além de inúmeras ações, atualmente de responsabilidade da Codemig.  

Que a Codemig, hoje, é um monstrengo de quase impossível administração adequada, nenhum economista ou técnico de desenvolvimento econômico duvida. O que o poder público condena, a exemplo da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais e do Ministério Público, é a venda da fonte de recursos mineiros que é a Codemig para pagar dívidas de custeio do estado.  

Pensar na venda da Codemig para quitar dívidas, sejam de custeio ou investimentos, retirando parte da capacidade dos investimentos mineiros, é um crime que as gerações futuras, e não só eu, lamentarão se estivermos vivos. As futuras gerações não perdoarão nossa atual submissão a interesses escusos. Mauro Werkema, alguns poucos deputados mineiros como Antônio Jorge, João Leite e poucos outros, se ainda estivermos vivos, não perdoaremos futuramente quem está se omitindo e não falando nada no presente. Apresentar novas ideias é um dever cívico. Omitir e ficar calados, vendo o mundo desabar à nossa frente, cometendo-se um crime contra o povo mineiro, é dose cavalar.

* Economista, professor titular de Macroeconomia da PUC-MG e jornalista