Todos nós morremos um pouco

Eu estava em frente à Câmara de Vereadores do Rio quando o corpo da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Pedro Gomes chegaram em seus caixões. Meu horário de almoço era preenchido com um aperto na garganta vendo centenas de pessoas aos prantos. Havia um sentimento ali, naquela corrente de humanidades, que era a expressão da representatividade da quinta vereadora mais votada do Rio. E não adianta dizer que morreu ali uma feminazi, como eu li em posts de gente carregada de ódio e “cansada da chatice do politicamente correto”. Morreu ali uma representante eleita do povo que, coisa rara, dialogava com ele. E não só. Morreram ali todas as mulheres. Morreram ali todas as mulheres e homens negros. Morremos ali todos os LGBTs. Morreram ali os moradores de periferia e comunidades, tão frequentemente confundidos pelos conservadores com os bandidos que eles tanto temem, mas insistem em não enxergar no andar de cima, em Brasília, nos partidos, nos governos. Morreram todos que, de uma forma ou de outra, encontravam sua voz na voz de Marielle.

A hora é de claramente tomar lados e partir para resgatar um país refém do medo, do autoritarismo, dos fascismos e dos esquerdismos toscos incapazes de autocrítica. Quem melhor mapeou a trama que envolve a execução de Marielle foi o querido Marcos Cavalcanti em sua página no Facebook. Diz ele: 

“Uma semana depois que a vereadora Marielle Franco denunciou o 41º batalhão (de Acari) e no dia seguinte que o general Braga Netto (o chefe da intervenção no Rio) tinha ordenado “inspeções” aos batalhões da PM, Marielle foi covardemente assassinada. 

A execução da Marielle Franco é um claro desafio ao general Braga Netto. As milícias que controlam várias regiões do Estado do Rio de Janeiro estão incomodadas. Com a prisão de Picciani, Paulo Mello e Eduardo Cunha (suporte político) e um interventor que elas não controlam na secretaria de segurança, elas estão se sentindo ameaçadas. E deram um recado. Não mexam conosco. 

Vivemos um momento decisivo no estado. Ou o general vai se intimidar e negociar um “arrego” com as milícias, deixando-as “quietas” em troca de uma “calmaria” na segurança  ou ele vai cumprir o que prometeu e enfrentá-las. Não tem muitas alternativas, mas lembro ao general que o momento que vivemos não é parecido com o passado. Agora existem as redes sociais e a vigilância e cobrança da sociedade vai ser muito maior. Vai ser difícil ele fazer este acordo “por debaixo dos panos”. 

A sociedade não quer saber apenas quem matou Marielle, mas quem MANDOU executá-la. Puxando este fio da meada vamos chegar muito perto do grupo de milicianos (fardados ou não) que tomou conta do estado. A situação é muito grave. É um enigma que interessa a todos nós. Ou o deciframos ou seremos devorados por ele. Nós e o general.” 

Eu vou além. Eu me questiono se uma intervenção militar é apropriada ou solução permanente para a violência de um estado em decrepitude moral, educacional e financeira. O estado de violência está não apenas no Rio, mas no Brasil inteiro diante da falta de uma eficaz política de segurança pública. E de educação. E de saúde. O Batalhão de Acari é conhecido por atirar primeiro e perguntar depois. Isso não é polícia. Não se trata de defender bandido, como muitos gostam de simplificar (ah, os simplificadores e sua incompetência intelectual para enxergar tons de cinza). Trata-se de construir uma política de segurança pública que não se baseie num extermínio humano que afeta justamente os mais pobres e os negros. Que inclua na equação os recursos públicos em saúde, educação e renda que insistem em ser desviados para Ilhas em contas secretas no Caribe.

A hora é de gritar alto, ir para as ruas e frear essa onda de militarismo assassino (pelo lado policialesco) ou redentor (pelo lado da intervenção), tão popular no discurso de muitos candidatos nas próximas eleições. Porque não se vê aí um fim definitivo do que nos aflige num estado gerenciado por bandidos que não estão nos morros. É hora de tratar o voto com muita, mas muita atenção. Porque a democracia morreu baleada numa rua do Estácio essa semana.      

* Jornalista, colunista do JORNAL DO BRASIL,  Sempre aos Domingos, no Caderno B