Olinda, em rede cultural

Fliporto 2013 ainda mais democrática

1. A Casa de Bernardo Vieira de Melo, por um novo Grito de uma Nova República. 

Sinto-me muito honrado e agradecido em receber o título de Cidadão Olindense, na Câmara Municipal de Olinda, Casa de Bernardo Vieira de Melo.   

Ele que deu o primeiro Grito de República do país, aqui em Olinda, em 10 de novembro de 1710, no Senado da Câmara de Olinda, 70 anos antes da Revolução Francesa e 60 anos antes da Independência dos Estados Unidos. Diz o Hino de Pernambuco que a República é filha de Olinda.

No momento em que o povo brasileiro nas ruas e nas redes sociais pede a fundação de uma Nova República, um novo Brasil, com um novo pacto federativo, um novo pacto social e uma profunda reforma política. Novamente Pernambuco não vai deixar de dar o seu grito e vai estar nessa luta. Se tivessem que escolher na federação um estado para representar Dom Quixote, certamente seria Pernambuco. Não lhe faltam sonho, luta e magreza geográfica para representar tal personagem.  

Quero deixar registrado que o legado da minha família da nossa ancestral Bárbara de Alencar, primeira mulher prisioneira política do Brasil, que está no panteão dos heróis nacionais por iniciativa de Projeto de Lei da então Deputada Ana Arraes; de Miguel Arraes de Alencar, que sonhou e lutou pelas causas populares, ao meu irmão Eduardo Campos, que inovoua gestão pública no Brasil e que resiste ao modelo centralizador da União e defende um novo pacto federativo, tudo é símbolo de resistência política buscando um Brasil que tenha o seu verdadeiro encontro com o povo brasileiro, que é o grande senhor da história e do destino do Brasil. Em tempo de crise, é tempo de fazer história. É tempo de pensar um novo Brasil.

2. Olinda, Porto das Artes.

Com seu título de Patrimônio Cultural da Humanidade, declarado pela UNESCO em 1982, a Marim dos Caetés é uma cidade especial.Além do seu patrimônio histórico e natural, tem eventos culturais da maior magnitude, tais como o Carnaval e a MIMO (Mostra Internacional de Música em Olinda), que agora se transformou em movimento e criou braços em Ouro Preto e Paraty. A FLIPORTO veio para se unir a esses eventos ou movimentos que fortalecem a identidade do município enquanto destino cultural, atraindo público leitor e turista cada vez mais interessados no segmento cultural.

Olinda é uma cidade que inspira escritores, cantores, artistas plásticos, músicos, compositores e artesãos, além de servir de fonte para diversas criações literárias. Sua atmosfera, uma mistura de paz e história de grandes conflitos, que marcaram a Nação nascente nos seus ideais libertários, é dotada de uma grande singularidade. 

O poeta Jaci Bezerra da Geração 65 disse que “Olinda é um volume de sonho e luz aberto nas prateleiras do ar.” E essa beleza de Olinda nos enche de alegria e nos deixa a certeza de que esse “casamento cultural” entre a Fliporto e Olinda veio para ficar. Estamos, não apenas com uma nova casa, mas com um jeito novo de caminhar e enxergar o contemporâneo.

Carlos Pena Filho legou-nos um dos mais belos poemas de louvor a esta cidade, ao dizer: 

“Olinda é só para os olhos, 

Não se apalpa, é só desejo. 

Ninguém diz: é lá que eu moro, 

Diz somente: é lá que eu vejo”.

Contudo, Olinda não é só cidade apenas para se ver, mas para ter movimento. E é isso que queremos ajudar a ter.

Essa cidade abre suas portas e suas tradicionais janelas – para a Literatura. Seus portões de ferro e quintais. Onde existem neste país quintais mais ecologicamente belos que os de Olinda?  E o que de dizer da natureza, do casario secular, da tradição e dos seus ares de cidade colonial? Tudo isso faz do Sítio Histórico de Olinda o porto perfeito para o vasto mar da criação literária e dos diálogos culturais.

Senhores vereadores,

Caros amigos aqui presentes,

Olinda precisa de um novo plano de desenvolvimento sustentável. De cidade criativa, que é o nome contemporâneo de cidade patrimônio cultural. Estamos desafiados a ajudar na realização desse legado. É urgente e necessário.

Olinda precisa valorizar ainda mais o seu potencial de cidade berço de manifestações de cultura e arte, fortalecendo a economia criativa. Precisa criar melhores equipamentos para abrigar os seus eventos culturais. Precisa cuidar melhor de suas praças e o estado de suas ruas e avenidas, sob pena de comprometer todo um esforço para o turismo cultural em Olinda. Precisa criar uma rede cultural sistematizada, adotando modelos que estão dando certo nas cidades com o perfil histórico e arquitetônico desta cidade secular. Criar uma biblioteca parque na Praça do Carmo interligada à Biblioteca Pública. Criar um site mapa cultural desta cidade e um app para celular, entre outras iniciativas. 

Há uma tendência de valorização das cidades históricas e de se fazer nelas festivais de músicas e festas literárias. A Fliporto vem somar nesse sentido: diálogos culturais e valorização do patrimônio histórico e cultural de Olinda e de Pernambuco.

3. Fliporto, uma Rede Cultural em movimento e ainda mais democrática.

 A função principal de uma festa literária,  que é rede cultural,  é aproximar as pessoas. E nisso se assemelha muito a um porto, que existe para receber, reunir e, com isto, diminuir as distâncias.  Se a metáfora é literalmente verdadeira para a vida cotidiana, quando se refere a um encontro literário se acende mais que um farol. Porto e farol! Que belo conjunto-união de metáforas numa cidade como esta, berço do primeiro poema escrito no Brasil - A PROSOPEIA, de Bento Teixeira Pinto. Um Bento Teixeira que talvez - há indícios - teria morado nos arredores do Largo do Amparo, nesse mesmo sitio histórico onde se ergue uma outra Casa  - a CASA FLIPORTO, QUE É UM PORTO DE IDEIAS que, dentro de instantes, os senhores vão conhecer como convidados. 

 A Fliporto vem sendo, há 9 anos, a menor distância entre os dois pontos, as vírgulas, as interjeições dos autores e leitores. Escritores de vários continentes desembarcam em nossa Festa e por maior que seja a distância logo se aconchegam.

Plural e inclusiva, a Fliporto 2013 aportará novamente em Olinda e redesenha o seu próprio conceito para permanecer atual e dinâmica. Transformou-se em movimento, em rede cultural. Tem portal permanente como plataforma de serviços e agenda cultural. A revista Artfliporto, que é uma revista de ensaios e de cultura que vai para a sua 3ª edição e que hoje à noite é lançada na Casa Fliporto. Tem uma sede, em Olinda, que serve à comunidade. Tem uma festa literária que é uma das três mais importantes festas literárias do Brasil, que é reconhecida internacionalmente. Hoje, pela manhã, na Casa Fliporto, em coletiva para a imprensa, anunciamos a pré-programação da Fliporto 2013. 

Anunciei que toda programação da Fliporto 2013 para o público será gratuita, apenas haverá uma inscrição pela internet para participar do Congresso Literário para uma ordenação de espaço. É uma Fliporto sem catracas. É uma Fliporto ainda mais democrática e inclusiva.

4. Casa Fliporto – Porto de Ideias. Projeto CLILO, plantando jovens leitores. É preciso pensar. É preciso dar exemplo.

A Casa Fliporto é a sede da Fliporto em Olinda, no Largo do Amparo e funciona como uma Casa do Pensar e de diálogos culturais.  É um equipamento cultural parapalestras, debates, lançamentos.

Abriga nela a Casa do Livro Infantil e da Leitura de Olinda - CLILO, que é um projeto de caráter permanente, de ações continuadas, espaço para a formação de leitores-cidadãos, que atende em média mais de 800 crianças por mês.Como disse o Papa Francisco: “Os jovens são a janela para o futuro”. Parafraseando Sua Santidade, não trago ouro nem prata, trago um pouco de conhecimento, vontade de diálogo e prego a tolerância nas relações humanas.

O acesso à leitura é um direito cidadão e precisamos ajudar a formar jovens críticos para lerem e interpretarem o mundo. O conhecimento é a libertação. 

Lançaremos logo mais, na Casa Fliporto, a 3ª edição da Revista Artfliporto, que é uma revista de ideias e de cultura.

5. A Crise do Contemporâneo. As atuais ideias não correspondem aos fatos. Por um novo pensar e agir.

Vivemos um labirinto de crises no contemporâneo, mas a maior crise é de valores e de lideranças.

Esse é o tema do meu novo livro “Resistir em tempos difíceis – um olhar sobre o contemporâneo” que lanço logo mais na Casa Fliporto.

A crise do euro, a Primavera Árabe, as catástrofes climáticas, o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos, os indignados na Espanha, a islamofobia na Europa, a crise Irã x Israel, a guerra na Síria, as eleições contestadas na Rússia, o Big Brother americano, os protestos nas redes sociais e nas ruas do Brasil, mostram um mundo em crise e transformação. Um mundo em transição.

 Já vivemos quase todos em rede e a era digital tem enorme influência nas relações humanas. O homem dominou o mundo pela tecnologia, mas não aprimorou o holístico.

O aparente ou real choque entre religiões e culturas marca o cenário contemporâneo. Vivemos uma crise das religiões. Não digo o mesmo da espiritualidade. Esta nasceu com os homens. As religiões são fenômenos mais recentes. É preciso criar pontes e diálogos. 

Precisamos reinventar a democracia. As recentes manifestações no Brasil demonstram que o atual modelo de democracia representativa está esgotado.Temos uma política analógica e carcomida para uma era digital.Urge uma reforma política e uma nova agenda para o Brasil. Como disse Cazuza, as ideias não correspondem aos fatos.  Precisamos de uma nova forma de pensar o Brasil.

Tenho esperança de que, ao existir uma expectativa de tantas dificuldades no mundo, o Brasil seja um paradigma de uma melhor tolerância na convivência entre religiões e culturas e de empreendedorismo para um mundo em crise e em conflitos. É o sonho brasileiro para o mundo, que precisa ser preservado e exportado.

Já dizia Oswald de Andrade: “Nós brasileiros oferecemos a chave que o mundo cegamente procura: a antropofagia (a capacidade de assimilar e transformar culturas)”. 

Com o excesso de informação da web em um mundo obeso de informação e faminto de sentido, impõe-se a necessidade de uma espécie de edição do presente.

Diálogo é a palavra-chave do mundo contemporâneo: entre artes, povos, religiões e culturas. A Fliporto tem essa centelha no seu fogo, no seu jeito de ser.

6. Legado

O poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema “Legado” nos ensina: “Que lembrança darei ao país que me deu tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?”. Qual o legado que tenho procurado construir?

Criei o Instituto Maximiano Campos (IMC), há 11 anos, para a preservação da obra  de meu pai e para apoiar iniciativas literárias. Como equipamento cultural, o IMC possui o memorial Maximiano Campos, o auditório Geração 65, uma praça de eventos e nele está o museu do Miniquadros de Pernambuco. Através dessa coleção de miniquadros podemos ver o mais vasto mural das artes plásticas do Estado de Pernambuco, no dizer do pintor José Cláudio. Fazemos o maior concurso literário de contos do Nordeste, que já vai para a 10ª edição este ano.

Fizemos o projeto Pernambuco em Antologias, com poesias, contos e crônicas. A maior coletânea de escritores da história de Pernambuco, composta por mais de duas mil páginas. 

Fazemos o projeto ‘Pernambuco – Jardim de Baobás’ para o registro e preservação dessas árvores.

Atualmente, a nossa região é a que mais concentra exemplares dessa espécie africana fora da África. O baobá não é uma árvore. É um destino, conforme provérbio africano. É o símbolo de resistência de um povo que sofreu durante séculos o mais humilhante dos castigos físicos e morais: a escravidão. A diáspora mais cruel da história. 

Temos a Editora Carpe Diem que tem prestigiado os autores regionais.

Fazemos a Fliporto: a Festa Literária que mais cresce no Brasil e é um porto literário e de diálogos no Atlântico Sul, que aqui acontece aqui em Olinda, como já dito.

Na área da Advocacia, destaco os mais de 20 anos da Campos Advogados, escritório do qual somos sócio sênior e onde prestamos serviços jurídicos com ética e qualidade.  Atualmente, 15% do trabalho da Campos é voluntário, em prol da justiça cidadã e inclusiva. 

Não cansamos de sonhar e trabalhar.

7. Agradecimento.

Senhores vereadores,

Agradeço a iniciativa do dinâmico vereador Arlindo Siqueira, autor da proposição. 

Agradeço a Câmara de Vereadores e ao povo de Olinda.  Agradeço a presença de todos.

Por ter a preocupação em dar uma contribuição à comunidade em que faço a Fliporto, procurosempre deixar um legado para a posteridade dessa cidade. Assim é que recebo com grande orgulho o título de Cidadão Olindense, que divido com todos os que fazem a Fliporto e com a minha família. Precisamos continuar a luta para transformar Olinda em uma cidade ainda mais justa, sustentável e onde possamos viver melhor. 

Que Deus abençoe a todos e que façamos uma reflexão nesse momento difícil pelo qual passa o Brasil eo mundo em transição. 

Que nos inspireos ideias de Bernardo Vieira de Melo e a mensagem do Papa Francisco, que foi buscar em Francisco de Assis a inspiração da renovação da Igreja Católica e de sua mensagem para o mundo. 

Já disse Leonardo Da Vinci que a simplicidade é a suprema sofisticação e completou o poeta Carlos Drummond que somente as coisas simples ficarão. 

É hora de unir os homens de boa vontade, os artistas e aqueles que fazem a grande política para fazer um novo Brasil. As ruas nos chamam. O Brasil nos chama nesses tempos difíceis. Só tem medo de rua quem tem medo de povo e de diálogo.

Onde mora o perigo é lá que também cresce o que salva, já dizia o poetaHölderlin.

Não podemos faltar ao Brasil.

Muito obrigado.

Antônio Campos - Advogado, Escritor, Editor, Membro da Academia Pernambucana de Letras e Curador da Fliporto - [email protected]

Olinda, 23 de julho de 2013.