Escrevo na véspera do Dia Internacional da Mulher e um dia depois de ter comemorado os 36 anos do meu único filho, o Christiano. Coisa que me deu o que pensar. Por exemplo: teria sido eu uma mulher mais bem sucedida profissionalmente se não tivesse tido filho? Talvez, porque aí o foco ao trabalho jamais seria desviado. Teria sido mais feliz assim? Claro que não. Parir um filho e amá-lo no ato, criá-lo, acompanhar seu amadurecimento, sua trajetória profissional e pessoal são coisas que absolutamente não têm preço.
Temos uma presidente mulher. Presidenta, como ela gosta de ser chamada. Olho para ela, enxergo o poder, a responsabilidade, mas sinto ali, naquele coração que às vezes parece de pedra, uma imensa solidão. Os puxa-sacos – aquela abominável classe que a cada dia cresce mais, mas sempre no entorno dos poderosos – fazem sua parte muito bem. Li, semana passada, que durante o jantar em que Sua Excelência esteve para homenagear o Sarney, todos elogiavam a pele louçã de Dona Dilma (64 anos), a maciez dos seus cabelos, o acerto no corte e no tom, o sorriso bonito, enfim, toda a paleta de cores possível em termos de puxasaquismo explícito. Detalhe: o jantar era na casa do Michel Temer, cuja mulher é aquela bonitona, a Marcela, trinta e poucos aninhos, que ofuscou a cerimônia de posse do maridão e da chefona. Duas mulheres, dois estilos, dois pensamentos e, claro, dois pesos e duas medidas. Duas mulheres poderosas, cada uma à sua maneira. Uma manda em casa, a outra manda no Brasil.
Mas aqui não se discute a questão da mulher X a mãe. É óbvio que Dilma Rousseff, com ou sem solidão de alma, está A-MAN-DO cada minuto de poder . Talvez muito mais do que tenha amado a maternidade, e nisso não vai nenhuma crítica, é apenas uma constatação baseada no seu passado guerrilheiro. No Alvorada, vive em companhia de sua mãe e recebe a eventual visita da filha e do netinho Gabriel . Este, pelo que se comenta, é o que desperta o lado Dilminha da poderosa vovó. Está certo. É isso aí mesmo. Babonas e bobonas - assim ficam todas as vovós do mundo, inclusive as guerrilheiras. Ter neto é tudo – e eu que o diga, com minha Bela Antonia, a quem homenageio nesse dia de hoje. Um projeto de mulher. De uma bela e brilhante mulher.
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Entretanto, por mais que se homenageie a mulher, ainda há muito a fazer por elas. Se conquistaram o mercado de trabalho com a competência com que conquistaram, ainda falta receber, além do respeito devido pelo feito, a justa remuneração. As mulheres, em praticamente todas as profissões, continuam ganhando menos do que os homens. Ralam igual ou pior – já que tantas se dividem entre o emprego e o trabalho doméstico – e na hora do contracheque a diferença pode ser gritante. Isso é injusto e irritante. E um bom mote para nossa presidenta usar na campanha pela reeleição que já começou - e na qual ela vai entrar na queda de braço só com homens. Com o goleiro Bruno a caminho do xilindró, cabe também uma reflexão sobre o que fazer na questão seríissima dos maus tratos e da violência contra as mulheres, a questão do direito ao aborto e tantas outras injustiças que ainda nos cercam.
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No nosso Congresso Nacional, que tem até boas representantes femininas, faz falta uma mulher no comando da casa. Na Câmara dos Deputados ou – e, aliás, preferencialmente - no Senado, que tem aquele presidente que nos foi imposto goela abaixo e ninguém respeita. Só uma mulher teria a sensibilidade de vetar sumariamente a tentativa de fazer de um homofóbico racista ( o popular além da queda, o coice) presidente da Comissão de Direitos Humanos. Alôoooooo!!!! No país que é presidido por uma mulher que foi barbaramente torturada na ditadura, não dá pra engolir que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados seja presidida por um fundamentalista de quinta categoria, né, não? Não dá, mas é o que vai acontecer. Acabo de ler que o pastor Marco Feliciano ganhou o posto. Isso é Brasil! Mulheres congressistas, reajam!!!!
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Dia Internacional da Mulher ou não, a verdade é que a guerra dos sexos não acabou. Se não, vejamos: o aniversário do meu filho foi comemorado com jantar em família na casa do pai do Christiano, o Ricardo. A ideia, claro, foi da mulher dele, a doce Fernanda. O auge da civilidade, vamos combinar. Foi comemorado com champagne francês e vinhos da melhor qualidade – afinal, o filho é chef e o pai, um amante da boa mesa. Nada de dieta naquele dia. Ao abrir uma garrafa de um tinto especialíssimo, o Ricardo sai-se com a seguinte: “Já cheguei à conclusão que mulher e bom vinho não combinam. Enquanto os homens saboreiam cada gole, elas ficam falando sem parar.”
Quase apanhou, claro, mas marcou a posição machista bem na véspera do Dia Internacional da Mulher. E o pior é que no fundo, no fundo, ele tem lá sua razão. Mulher sempre prefere falar. Mas quando ela prefere fazer, sai de baixo. Taí Dona Dilma que não me deixa mentir.