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Minha tia santa 

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O dinheiro manda em tudo. Até na canonização dos santos. Cheguei a esta conclusão quando soube da fortuna que foi gasta pela congregação para fazer de Madre Paulina a “primeira santa brasileira”, ela que era italiana de nascimento, de Trento, e foi criada em Nova Trento (SC), para onde se mudou aos 10 anos.

A primeira santa brasileira de fato e carioca da gema já foi beatificada há mais de 20 anos e, até agora, nada de canonização. Ela é minha tia-avó e chama-se Madre Maria José de Jesus. Na vida civil, foi Honorina de Abreu, nascida em 1822, filha de Adélia e do grande historiador Capistrano de Abreu.

Tenho pensado muito nesse assunto desde que soube que o Papa Bento 16 virá ao Rio de Janeiro, ano que vem, para a Jornada Mundial Católica. Quem sabe não vem com ele o milagre da canonização de minha tia?

Seria a maior emoção da minha vida, com certeza.

                                                              ***

Honorina de Abreu era moça bonita, que dominava sete idiomas, tinha uma vida boa, circulava pela melhor sociedade, quando, em 1902, de volta de uma festa em Petrópolis, decidiu servir apenas a Deus. Nove anos depois, para desespero do pai, agnóstico convicto, entrou para o Carmelo de Santa Teresa, onde ficou até a sua morte em 1959. Entrou noviça, vestida de noiva, mas pouco depois já se tornava a priora do convento, cargo que ocupou por 40 anos. A partida da filha quase mata meu bisavô, já viúvo há muitos anos. Ele não se conformava e dizia, segundo relato de minha avó, que nunca poderia imaginar entregar sua filha para casar com Jesus. Pai e filha não mais se viram porque ele recusava-se a ir visitá-la no claustro.

Ela, por sua vez,  dedicou praticamente sua vida a traduzir toda a extensa obra da fundadora de sua Ordem, Santa Teresa d’Ávila. O quinto e último tomo chegou às livrarias um ano após a sua morte. O pai não a visitava, mas o poeta Manuel Bandeira, sim. Ele tinha uma prima freira, Irmã Maria do Carmo, e ajudava Madre Maria José com as dúvidas na tradução dos livros, enquanto conversavam sobre poesia – outro dos talentos da freira.

Lembro-me ainda das visitas que fazíamos amiúde ao Carmelo – uma belíssima construção colonial na Avenida Almirante Alexandrino, em Santa Teresa. Íamos – a mana e eu – acompanhadas por vovó e mamãe. Depois da viagem no bondinho, ainda encarávamos o plano inclinado do convento, que nos levaria à casa e ao parlatório, onde ela nos recebia atrás de grossas grades de ferro e pesada cortina. Durante algum tempo, com uma voz baixa, delicada, santa, ela conversava um pouco conosco e, depois, pedia que vovó e mamãe saíssem. Aí, diante de mim e de minha irmã, abria a cortina – as crianças não têm pecado, portanto não “contaminam” as servas de Deus. Madre Maria José era miúda, bonita, com plácidos olhos castanhos e o falar que sempre atribuí aos anjos. Perguntava de nossos estudos, da vida cristã, e falava sempre do amor de Jesus e de Maria. Na hora da despedida, o adeus era substituído por um Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, ao que respondíamos Para sempre seja louvado, em coro.

Minha tia era boa de cartas também. Escreveu muitas, e lindas, para toda a família. Insistia com o pai e com o irmão, meu avô Adriano, que também era ateu, para que aceitassem Deus em seu coração. Meu bisavô morreu na rede e dispensando o padre: “tenho mais prestígio com Deus do que o senhor, Padre. Afinal, sou sogro Dele.” Meu avô, na última hora, aceitou a extrema-unção por causa da irmã.

É linda e santa a carta que ela enviou para minha mãe, quando meu pai morreu. Ninguém podia deixar de se consolar com aquelas palavras tão doces e sábias.

                                                             ***

O enterro de minha tia Honorina, era assim que a chamávamos, foi o primeiro a que fui em minha vida – e ainda me lembro. Porque achei que ela estava apenas dormindo, diante do semblante plácido e ( não me perguntem como) do rosto ainda rosado. Pra mim, já era milagre. Ela está enterrada no Carmelo, que hoje tem um memorial de Madre Maria José de Jesus para quem quiser visitar: a cela em que vivia pobremente, o silício, os livros, as sandálias, o hábito, o véu. Ela morreu depois de anos de muito sofrimento e do convento só saiu em duas ocasiões: uma para inaugurar o Carmelo de Teresópolis, outra para submeter-se a uma cirurgia. Amou a Deus sobre todas as coisas e viveu para Ele.

A Ordem das Carmelitas Descalças continua pobre, paupérrima. Nenhuma condição de bancar o projeto que viaja sabe-se Deus por quais labirintos do Vaticano. Já o Santuário de Madre Paulina, 10 anos depois de sua canonização, vai bem obrigado, pelo que se pode ver pelo bem montado site, que também recolhe doações.

Não quero aqui criar uma briga de santas, mas penso que seria justíssimo que não apenas o Brasil, mas o Rio de Janeiro principalmente, tivesse a sua Santa. Do jeito que as coisas andam por aqui, quanto mais santo melhor, né, não?

Como para quem tem fé nada é impossível, estou contando com o afago do Papa Bento 16 ao povo do Rio de Janeiro. Deus é brasileiro ou não é?