Na foto em preto e branco, mas ainda bem nítida nos seus 65 anos de vida, meus pais, recém-casados, estão a bordo de um navio a caminho da Itália, onde morariam por dois anos. Foram muitos os relatos que ouvi de mamãe sobre esse séjour italiano e sobre o luxo que foi viajar de navio, na primeira classe, um sonho que a moça de classe média alta, criada com todos os luxos e mimos, ainda não vivera. Havia uma abissal diferença entre viajar na primeira classe – com camarotes completos, trajes paras as mais variadas horas do dia, jantares em black tie – e a segunda classe, bem mais simples, e ainda a terceira classe, para os muito pobres. Mamãe contava da comida deliciosa, dos vinhos finos, do staff a bordo, do luxo da cabine, da festa à fantasia na passagem da linha do Equador... Seus verdes olhos brilhavam quando ela contava e relembrava aquele seu início tão feliz de vida conjugal, interrompido abruptamente, quatro anos depois, com o infarto fulminante que matou meu pai.
Quando fiz 18 anos, ela me deu de presente uma viagem de navio a Buenos Aires. Com os cuidados que as mães sempre têm, motivou minha amiga ( e hoje comadre) Katia a viajar comigo, convenceu a mãe dela, que era tipo fera, e partiu para a Polvani, onde contratou a viagem – e onde escalou as duas outras moças que dividiriam a cabine conosco. Uma, Claudia, era filha de um amigo de mamãe. A outra, Glória, era sobrinha de seu compadre e filha de outra grande amiga. Anos depois, Glória se tornaria minha comadre também – é a madrinha do meu único filho. Da turma, só a Claudia sumiu na poeira do tempo... Nunca mais vi.
Enfim, voltando: foi inesquecível essa viagem. Até porque o que olhamos com o olhar da juventude é para sempre. Mas o que mais me chama a atenção, hoje, é que se viajar de um modo geral já era uma aventura, uma coisa rara e para poucos – viajar de navio, então, era muito, muito especial. Envolvia toda uma preparação, fazia-se praticamente um enxoval de viagem, e até o embarque era um charme, ali na Praça Mauá, a visita a bordo franqueada à família e aos amigos, que ficariam em terra firme. Tinha coquetel, visita aos camarotes, aos restaurantes, às lojas, e, no final, aquela cena cinematográfica: os viajantes acenando para os que ficavam em terra, enquanto o navio se afastava. Era romântico, tinha muita choradeira, e, na volta, a cena se repetia ao contrário: o navio se aproximando e os passageiros procurando seus rostos amigos entre todos aqueles que esperavam no cais.
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Muitos anos mais tarde, depois de uma viagem para a Disney , voltamos – Fernando, meu saudoso companheiro, Christiano, meu filho, e João Henrique, meu afilhado e filho da Katia do outro cruzeiro – a bordo do Eugenio C para casa. Foi viagem divertidíssima e super primeira classe. Minha amiga Graça Montenegro, então gerenciando a Línea C, cuidou para que gozássemos de todas as mordomias possíveis. Inesquecível viagem, quando Fernando, bom de gogó, resolveu apresentar-se no show de calouros do navio cantando a dificílima Caravan – e acompanhado, nada mais, nada menos, do que pela orquestra de jazz do também saudoso Marcos Szpillman, um craque. Foi um desastre a apresentação. Apesar de todos os ensaios, Fernando ia para um lado e a orquestra, pra outro. Ele ficou arrasado, claro. Eu e os meninos rimos muito.
Depois, voltei a andar de navio por duas vezes, acompanhada pela mana, e a convite de nosso Rei, Roberto Carlos. È aí que eu quero chegar.
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Os cruzeiros de hoje. A classe C vai ao paraíso, maravilha!, mas a categoria, os bons modos, o fino trato ficaram em terra firme para sempre. O deck desses navios de hoje é uma visão do inferno, com aquele monte de gente aprendendo a dançar lambada e literalmente se espremendo nas piscinas. Nada a fazer. Ou melhor: há, sim, é só não embarcar. A falta de modos, aliás, grassa em terra, mar e ar. Não é culpa do Roberto nem de qualquer outro artista ( li, pasma, que Agnaldo Rayol também terá o seu cruzeiro e me pergunto como será a clientela!).
Afinal de contas, nem os comandantes são mais aqueles dos meus bons tempos. Al mare, cazzo!!!, como mandou às favas todos os que estavam sob sua responsabilidade o comandante do mesmo Costa Concórdia, quando naufragava em janeiro passado.
Resumo da ópera: tudo passa, tudo muda, e esse mundo de hoje, com todo o seu hi-tech e todas as facilidades, ficou chato. E muito rastaquera, como diria minha avó.