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Obituário - Arquiteto e urbanista Paulo Casé, 87

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Carioca da gema, sempre bem-humorado e apaixonado pelo Rio e pela arquitetura, Paulo Casé enxergava a paisagem arquitetônica da cidade como uma exposição a céu aberto. Dizia que o Rio “tem um povo e uma paisagem heterogêneos. E isso é a riqueza dessa cidade” e defendia que a prefeitura mantivesse um escritório exclusivo em que arquitetos e urbanistas avaliassem projetos para o Rio. Entre as décadas de 1980 e 1990, Casé manteve uma coluna, aos sábados, no JORNAL DO BRASIL.

Macaque in the trees
Paulo Casé no Museu da Cidade: arquiteto tinha paixão pelo Rio de Janeiro

Casé projetou hotéis de luxo, como o antigo Le Méridien, no Leme, e o Marriot, e edifícios que marcaram época, como o Estrela Brilhante, no Corte do Cantagalo, erguido em 1959 com fachada toda em mármore. Projetou também obras urbanísticas, como o Favela-Bairro da Mangueira. Na página do seu escritório, aparecem projetos do Parque Aquático Maria Lenk, da Cidade das Crianças, do Rio Cidade de Ipanema e Bangu, e da Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo).

Paulo Casé formou-se arquiteto pela Escola Nacional de Belas-Artes do Rio de Janeiro, em 1958, e montou escritório próprio, em sociedade com Luiz Acioli. Faz parte de uma geração de profissionais que passou os anos de faculdade debatendo arquitetura e lendo tudo o que lhe chegava às mãos sobre o modernismo. Respirava arquitetura 24h por dia.

Como a maioria dos colegas, Casé tinha em Lucio Costa, Sérgio Bernardes e Oscar Niemeyer seus gurus nacionais, mas era a arquitetura de Frank Lloyd Wright que fazia realmente sua cabeça.

Em 2011, ao completar os seus 80 anos, lançou o livro “Paulo Casé 80 anos: vida, obra e pensamento”, editado pela Casa da Palavra. Na ocasião, Paulo Casé afirmou em entrevista que, se alguém quiser fazer urbanismo, deve visitar Copacabana, e argumentou que lá os cruzamentos aglutinam as pessoas, enquanto a Barra não tem esquinas, botequins ou praças. É um bairro com poucos espaços de encontro, e prédios sem qualidade arquitetônica. O arquiteto falou sobre a beleza de Nova York, onde os prédios são bonitos e se comunicam com a cidade: “A boa arquitetura tem o homem como princípio”, observou.

Mas nem tudo é unanimidade da criação dos arquitetos, sobretudo entre aqueles que promovem intervenções urbanas. Foi o que aconteceu com o Pórtico de Ipanema — criado por Casé —, no cruzamento da Rua Visconde de Pirajá com a Avenida Henrique Dumont, derrubado no início do mandato do prefeito Eduardo Paes, em meio a reclamações de moradores, que diziam que o equipamento era uma passarela que ligava nada a lugar nenhum.

O arquiteto não guardava, porém, ressentimentos do episódio: “Aquele arco representava a divisão entre Leblon e Ipanema, ou seja, a entrada de um bairro conhecido no mundo todo. Todo lugar importante tem seus referenciais. Paris, por exemplo, tem o Arco do Triunfo”.

Ao urbanizar a Mangueira, Casé fez uma espécie de viaduto que vai ao topo da favela. Provavelmente devido ao tráfico de drogas, ali havia poucos carros circulando. O arquiteto observou que fez na Mangueira novos caminhos e drenagem, o que diminuiu o risco de casas serem afetadas com as chuvas. À época, foi a primeira grande favela a ser tratada dentro dos princípios do programa Favela-Bairro. Casé salientou, então, que as plantas não tinham a precisão tecnológica das de hoje. Elas não levavam em conta uma rocha num determinado lugar, uma árvore.

Sua atividade profissional, nos últimos anos, voltara-se para o urbanismo e a arquitetura que ele chamava “de intenções”, de projetos simples, mas que ofereciam opções de lazer e esportes aos bairros carentes do Rio de Janeiro.

Filho de Ademar Casé, radialista pioneiro no Brasil, irmão do diretor de TV Geraldo Casé, o arquiteto Paulo Casé morreu, ontem, aos 87 anos. Ele estava internado, em coma, há um mês no hospital Copa Star, em Copacabana, no Rio, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC). Casé deixa a mulher, Olga Maria, e quatro filhos: Hamilton, Paulo Augusto, Luiza Augusto e Marcelo. Ele era tio da atriz Regina Casé. O filho Hamilton Casé, também arquiteto, disse que “foi um privilégio trabalhar com ele por mais de 30 anos.” O velório de Paulo Casé será hoje, a partir do meio-dia, no Memorial do Carmo, no Cemitério do Caju, e seu corpo será cremado às 16 horas.



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