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Cultura

Fruto de uma experiência com orquestra, novo CD de Pedro Mariano reflete uma fase mais existencial no repertório romântico do cantor

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, Especial para o JB

Consequência de uma longa imersão pelo universo orquestral, de tamanhos variados e da mais sortida diversidade de instrumentos e parcerias, o novo CD de Pedro Mariano - a caminho das prateleiras e já disponível em todos os serviços de streaming – reflete aquilo que o cantor e produtor indicado quatro vezes ao Grammy Latino chama de autoanálise. Decantadas nos tímpanos além dos arranjos, avaliadas como dramaturgia dos verbos “amar” e “viver”, letras como as de “Labirinto” (Jair Oliveira), “Alguém dirá” (Pedro Altério/Pedro Viáfora) e “Enfim” (Daniel Carlomagno) carregam tintas quase existencialistas, menos reféns de um lirismo imediatista e mais voltadas para balanços de vida.

Macaque in the trees
O duo digital com a mãe, Elis, é um momento de grande emoção no show de Pedro Mariano, que sai também em DVD

Em seu conjunto, o repertório de “Pedro Mariano e Orquestra – DNA” (lançado pelos selos LAB 344 e NAU, também no formato DVD) espelha um apego carinhoso ao patrimônio afetivo de quem dedicou os últimos 23 anos a uma carreira de descobertas, garimpos musicais e sensoriais.

“A canção de amor que mexia comigo há 20 anos evocava a conquista, a paixão, mas a paixão vista quase de maneira adolescente, visceral. Hoje, o que mais mexe comigo nas canções de amor é o respeito ao que se cativou, o querer bem, o estar feliz com o que se tem. Hoje, valorizo mais o porto seguro do que as conquistas”, diz Pedro Mariano, que gravou o CD no início do ano, no Teatro Alfa, em São Paulo.

Várias vezes, na conversa sobre os novos rumos que busca em sua trajetória, o músico de 43 anos menciona, ainda que inconscientemente, a palavra paternidade, destacando o peso que ser pai (de Rafaela) tem em seu processo de amadurecimento pessoal, que acompanha um amadurecimento profissional, na arte, já notado pela crítica desde o último disco. Seu trabalho anterior, de 2014, já trilhava uma linha de orquestra.

“Nas turnês pelo Brasil, essa experiência orquestral, feita na unha, sem metrônomo, com profundidade de campo, muda tudo, exigindo um maior grau de concentração dado o respeito que é necessário ter com todo o grupo de pessoas ao seu lado, no palco. Esse é um trabalho que espelha não só o meu amor pela MPB, como instituição, mas também marca o meu olhar para a música como sendo uma filosofia de vida”, diz Mariano, que se apresenta em Jundiaí, em São Paulo, neste sábado, no Teatro Polytheama. “Sou um cantor em constante transformação, porém com mais certezas do que dúvidas”.

No terreno das reinvenções, seu novo disco deixou espaço nobre para regravações de medalhões da MPB, como Ivan Lins e Abel Silva, representados numa revisão de “Acaso”, e Tavito e Zé Rodrix, que entram na bolacha com “Casa no campo”. Sua presença dá ao CD um tempero de amor materno, pois a canção foi um dos hits de sua mãe, Elis Regina (1945-1982). Nos shows, ao atacar esta faixa, Mariano improvisa uma espécie de “duo digital” quase metafísico com a mãe, ao projetar a imagem dela em ação, em um telão, num momento de muita emoção. De todos os resgates sonoros propostos pelo músico, o maior acerto, segundo o termômetro da crítica (e do aplauso do público), é uma (inspirada) visita a “Êxtase”, de Guilherme Arantes.

“É difícil voltar a uma dessas canções que estão no consciente coletivo, que todo mundo sabe. A questão é como manter a identidade, preservando o respeito à obra original. Nos EUA, prestar homenagem a um músico é gravar igualzinho ao que ele fez. Não penso assim: pra mim, homenagear é trazer uma nova proposta para aquela música sem deixar perder sua essência. E foi o que tentei”, diz Mariano. “A questão é buscar uma nova proposta com a qual os criadores se identifiquem, minimamente. Não quero fazer qualquer coisa para, ao fim de um disco, ter os compositores me ligando e dizendo ‘Seu maluco, o que você fez’. Aí não”.

 



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