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Cinema negro em alta

Encontro criado por Zózimo Bulbul chega à 10ª edição, exibindo 74 filmes nacionais e 18 produções estrangeiras em quatro espaços do Rio e Niterói

Jornal do Brasil MÔNICA LOUREIRO, monica.loureiro@jb.com.br

A nova edição anual do “Encontro de cinema negro Zózimo Bulbul – Brasil, África e Caribe” acontece de hoje a 9 de setembro, no Centro do Rio e na Universidade Federal Fluminense, com a exibição de produções nacionais e estrangeiras, masterclasses, debates, workshops, mesas redondas e sessões especiais.

Organizado pelo Centro Afrocarioca de Cinema e com curadoria do diretor e escritor Joelzito Araújo, o evento apresenta 74 filmes nacionais, de cinco regiões do Brasil e 18 internacionais, entre longas e curtas, sendo, mais uma vez, a maior janela de exibição de cinema negro no país. A programação acontece no Cine Odeon, Centro Cultural Justiça Federal, Museu de Arte do Rio (MAR) e Cine Arte UFF, em Niterói.

“Zózimo me chamou para fazer a curadoria de filmes norte-americanos em 2012. Logo depois, ficou doente (o ator e militante Zózimo morreu em janeiro de 2013) e, então, fiquei como curador de todo o evento. No ano passado, Janaína Oliveira foi convidada e também já está quase fixa”, conta Joelzito, que faz questão de lembrar da importância do amigo: “Ele tem dois lugares especiais na história do cinema negro: a primeira, a criação de uma ponte sólida entre o cinema africano e o brasileiro, a segunda, a sua preocupação com a formação dos jovens”.

Para esta edição, foram inscritos mais de 180 produções, número que aponta um crescimento significativo na área. “Há uma participação cada vez maior de novos realizadores, digo mesmo uma explosão do cinema negro no Brasil. E atribuo isso ao resultado de jovens negros que ingressaram por cota nas universidades. Há duas edições, tínhamos 70 inscritos, na anterior foram 110 e, agora, 188. Notamos um aumento no número de longas e no de realizadoras negras - são 40% dos participantes este ano. Hoje posso dizer que o festival, que já foi conhecido pela exibição de filmes estrangeiros, é basicamente nacional, reservando, inclusive, os horários nobres para as sessões dos nacionais”, ressalta ele.

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Joelzito Araújo afirma que o evento cresce a cada edição (Foto: Divulgação)

Um dos principais lançamentos do evento será “Bando, um filme de:”, o documentário de Lázaro Ramos e Thiago Gomes sobre o Bando de Teatro Olodum, que tem exibição marcada para o dia 4/9 (terça-feira), às 21h. No mesmo dia, Lázaro participa da palestra “Cinema e literatura” ao lado de Ana Maria Gonçalves, roteirista autora de “Um defeito de cor, às 10h no MAR. E Thiago lança também sua ficção “As balas que não dei ao meu filho”.

Enquanto os filmes nacionais passam por uma seleção, os estrangeiros são, pelo menos até esta edição, convidados. E, com as produções, alguns realizadores e profissionais ligados ao cinema também chegam ao país para várias atividades. “Começo destacando Haile Gerima, etíope que mora nos Estados Unidos desde os anos 1970 e vem pela primeira vez ao Rio. Ele é um rebelde, fez um filme chamado ‘Bush mama’ que rodou os festivais e fez enorme sucesso, e ‘Sankofa’, nos anos 1990, que ele mesmo distribuiu e foi um fenômeno. A outra presença importante é a de Manthia Diawara, nascido no Mali, que é um grande intelectual e crítico de cinema”, cita Joelzito, a respeito dos convidados que promovem masterclasses amanhã e sexta-feira, às 10h, no Odeon.

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Haile Gerima é um dos convidados internacionais (Foto: Divulgação)

A primeira semana de programação, com os filmes principais, acontece no Odeon - “O cinema era a paixão do Zózimo”, lembra Joelzito. O CCJF vai apresentar mostras específicas, como “Nova geração do cinema negro carioca” e “Cinema negro documental”, enquanto que o MAR e a UFF vão exibir uma seleção com os principais títulos e sediar palestras e mesas redondas.

Além do ponto fundamental de exibir filmes de realizadores negros, o Encontro está sempre ligado às tendências da sociedade. “Ele é um evento contemporâneo, com as emergências temáticas. O público precisa ter ideia do que está sendo debatido, como a questão da ‘bicha preta’ - como os homossexuais negros costumam se chamar -, abordada na Sessão Black LGBTQ+. Depois disso, avaliamos a qualidade da narrativa, originalidade e outros aspectos”, explica Joelzito, que está trabalhando numa série para um canal de streaming, mas ainda não pode revelar detalhes. “Meu novo filme, que já está pronto, é sobre o músico Fela Kuti. Devo lançar em 2019, só preciso terminar as mais de 110 negociações de direitos de imagens que me tomaram um ano e meio. E minha próxima ficção se chama ‘O pai da Rita’. Estou com 80% do orçamento captado, só esperando uma brecha na agenda de Ailton Graça para começar a filmar”, conta Joelzito.



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