Devido aos cinco casos de contaminação e três mortes de pessoas com o hantavírus no navio de cruzeiro MV Hondius, que saiu no dia 1ª de abril deste ano da Argentina com 174 pessoas a bordo, as pessoas têm feito uma comparação que se tornou quase automática desde 2020: o risco de uma nova pandemia semelhante à covid-19.
Apesar de os dois quadros envolverem vírus capazes de afetar o sistema respiratório, especialistas afirmam que existem diferenças estruturais importantes entre as doenças, principalmente na forma de transmissão e no potencial de disseminação global.
Forma de transmissão é a principal diferença
Enquanto a covid-19 se espalhou globalmente pela transmissão aérea entre pessoas, o hantavírus possui uma dinâmica muito mais limitada. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o vírus está associado principalmente a roedores silvestres infectados.
Na prática, a contaminação humana costuma acontecer após contato com urina, saliva ou fezes desses animais, especialmente em locais fechados, áreas rurais, depósitos ou ambientes pouco ventilados. Isso reduz significativamente a capacidade de propagação em massa.
A médica Elisa García Vázquez, chefe da Unidade de Doenças Infecciosas do Hospital Virgen de la Arrixaca, afirmou em entrevista à rádio espanhola Cadena SER que o hantavírus já é conhecido pela ciência há décadas, diferentemente do coronavírus identificado em 2019. Segundo ela, os casos de transmissão entre humanos são considerados excepcionais.
Esse ponto altera completamente o risco epidemiológico. O SARS-CoV-2, vírus responsável pela covid-19, apresentava alta capacidade de transmissão comunitária logo nos primeiros meses da pandemia, fator que acelerou a circulação mundial da doença.
Isso também foi ressaltado pela biomédica virologista, Mellanie F. Dutra, que em seu perfil oficial no X, comentou que apenas a cepa Andes do vírus tem capacidade para gerar a transmissão entre humanos. Mesmo assim, a especialista destacou que a transmissão não é tão fácil como a do Covid-19.
Sintomas podem parecer semelhantes no início
Outra razão para a comparação entre as doenças está na fase inicial dos sintomas. Tanto a covid-19 quanto o hantavírus podem começar com febre, dores musculares, mal-estar e fadiga, o que dificulta uma diferenciação imediata sem avaliação clínica.
Especialistas explicam que essa semelhança acontece porque ambas provocam resposta inflamatória sistêmica no organismo. No entanto, a evolução clínica costuma seguir caminhos distintos dependendo do vírus envolvido.
Um ponto importante é que no caso da covid-19, uma das características marcantes identificadas durante a pandemia foi a alteração de paladar e olfato, condição menos associada a outros vírus respiratórios. Já o hantavírus costuma evoluir rapidamente para comprometimento pulmonar grave em parte dos pacientes.
Hantavírus tem menor disseminação, mas pode apresentar alta letalidade
Embora seja menos transmissível, o hantavírus chama atenção dos especialistas por outro fator: a taxa de mortalidade.
Pesquisadores ouvidos pelo jornal El País explicaram que algumas variantes da doença podem apresentar letalidade significativamente superior à observada nos primeiros anos da covid-19. Isso ocorre porque determinados tipos do vírus provocam uma síndrome pulmonar severa, capaz de gerar acúmulo de líquido nos pulmões e insuficiência respiratória aguda.
Apesar disso, os cientistas reforçam que alta letalidade não significa necessariamente maior risco pandêmico. Para que uma doença alcance proporção global semelhante à covid-19, é necessário existir transmissão eficiente entre humanos, algo que o hantavírus não apresenta de forma consistente.
A pesquisadora Noemí Sevilla, diretora do Centro de Investigação em Sanidade Animal da Espanha, declarou ao jornal Milenio que o hantavírus já é monitorado pela comunidade científica e possui comportamento muito diferente do coronavírus. Segundo ela, os protocolos atuais permitem controlar com maior eficiência possíveis surtos localizados.





