Um animal que havia desaparecido completamente do Rio Grande do Sul voltou a ser registrado no estado após 130 anos sem avistamentos. O tamanduá-bandeira foi flagrado por câmeras de monitoramento no Parque Estadual do Espinilho em uma das descobertas mais impactantes para a conservação ambiental brasileira nos últimos anos.
Já era tarde da noite quando uma armadilha fotográfica flagrou um animal grande, de orelhas pequenas e focinho alongado, desfilando entre as árvores do parque. O que os pesquisadores viram nas imagens foi um tamanduá-bandeira, a última espécie que esperavam encontrar ali.
O momento da descoberta
O ecólogo Fábio Mazim e sua equipe do Instituto Pró-Carnívoros assistiam por horas às filmagens de armadilhas fotográficas, esperando registros de lobos-guará, cervos-do-pantanal ou até um gato-dos-pampas. O que apareceu na tela foi o focinho longo e a cauda peluda de um tamanduá-bandeira entrando na imagem.
A surpresa foi tamanha que, segundo Mazim, a equipe começou a “gritar e chorar” ao avistar o animal.
Nos seis meses seguintes, o animal foi avistado 11 vezes pelas câmeras do parque. Os cientistas ainda não têm certeza se se trata do mesmo indivíduo ou de animais diferentes, mas os registros confirmam um fato: o tamanduá-bandeira está de volta ao sul do Brasil.
De onde veio o tamanduá-bandeira?
A hipótese mais aceita entre os pesquisadores é que o tamanduá tenha vindo da Argentina. Desde 2007, a Organização Não-Governamental (ONG) Rewilding Argentina vem reintroduzindo a espécie no Parque Nacional Iberá, na província de Corrientes, com a maioria dos indivíduos sendo filhotes órfãos resgatados de atropelamentos ou de caça ilegal.
A veterinária brasileira Flavia Miranda, que estuda a espécie há mais de duas décadas, avaliou que o animal registrado no RS provavelmente veio de Corrientes. O deslocamento de mais de 100 quilômetros até o território brasileiro é tratado pelos especialistas como um sinal de que o projeto está funcionando além das fronteiras onde foi planejado.
A importância do tamanduá no ecossistema
Para especialistas, o retorno do animal é fundamental para o ecossistema. O tamanduá-bandeira desempenha um papel ecológico vital, adubando a terra ao se alimentar de insetos e ao dispersar nutrientes no solo. A presença da espécie contribui para o equilíbrio do ecossistema do Pampa, bioma no qual o Parque do Espinilho está inserido.
O Pampa é o segundo menor bioma do Brasil, mas abriga mais de 12.500 espécies, com 1.136 espécies de animais vertebrados. Infelizmente, o bioma está muito ameaçado pelo avanço agrícola e conta com menos de 3% de sua área em unidades de conservação.





