A camisa listrada de Assis Valente

Em seu polêmico centenário, a controvérsia menos relevante trata da questão de que o herdeiro de José de Assis Valente e Maria Esteves Valente, provavelmente nascido em 19 de março de 1911, seria natural de Santo Amaro da Purificação ou Campo da Pólvora de São Salvador. Isto porque o ilustre compositor, que fora estudante do Liceu de Artes e Ofícios, artista de circo e protético, se enraizara de tal modo no coração de um saudoso “Brasil pandeiro” que o mais importante a dizer, neste momento, seria: o sambista é fruto da sensualidade negra de Oxum em inédita parceria com São Sebastião do Rio de Janeiro, com certidão de batismo forjada em terreiro de candomblé da Bahia de Todos os Santos.

O “Pivô do samba”, conforme fora alcunhado por Lamartine Babo, versou com tamanha original brasilidadesobre a alegria de ioiô e Iaiá que os foliões de outrora se imaginaram numa eterna manhã de domingo de Ccarnaval a brincar no Cordão do Bola Preta, conforme aquele sujeito fantasiado de Maria Antonieta a se esbaldar pelos salões a céu aberto da Praça 11 e adjacências boêmias e patuscas. Dizem até que o precavido pierrô de alfaia retirou o seu anel de doutor  para não dar o que falar; e, com um canivete no cinto e um pandeiro na mão, sorria quando o povo dizia: “Sossega, leão; sossega, leão”.

Se em vez de tomar chá com torrada, ele bebeu parati, para sair por aí a anunciar que o Tio Sam andava dizendo que o tabuleiro da baiana, com cuscuz, acarajé e abará, melhorou o seu prato, pois que estava mesmo era querendo conhecer a batucada brasileira, porque chegou a hora de essa gente bronzeada mostrar seu valor, e o matreiro sambista queria “ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar”.

 Mas é fato que esse moreno frajola fez bobagem porque, aproveitando a ausência da mulher amada,maltratou o pobre coração de uma tal cabrocha da terra, a Maria Boa (“Que vantagem Maria tem? / É boa / Como é que Maria vive? / À toa / Com quem é que Maria mora? / Comigo / Onde é que Maria vive? / Não digo”).  O mestiço ingrato, além de inventar uma chupeta de um saco de água quente, estragou a cortina de veludo pra fazer uma saia... Não satisfeito, ainda arrancou do guarda-roupa de sua companheira uma combinação, do cabo de vassoura improvisou um estandarte da Estação Primeira de Mangueira e botou amante  sambando no sagrado barracão, o que a fizera desabafar: “Quando eu penso que outra mulher / Requebrou pra meu moreno ver / Nem dá jeito de cantar / Dá vontade de chorar / E de morrer.”  

Ao que parece era tal boneca de pano de origem francesa oriunda de um sombrio e triste cabaré, que desfilou na favela com peignoir e sandália de veludo da boa Maria... Pelo dito e comprovado, no entanto, o affaircom a estrangeira não regenerou nem satisfez o alegre rapaz que, injuriado, lhe disse em bom francês da Lapa: “Janette, si vu ne vê pá dance, pardon mon cherri, adie, jê me vá, que eu sou bamba e não palhaço”. De outra feita, com o ninho de amor já desfigurado e vazio, sem outra opção amorosa, a cocotte foi obrigada a se despedir num inglês parco e miscigenado: “Good bye, meu boy”.

É sabido que o mulato faceiro se refugiou nos acalantos de uma bela portuguesa de nomeada Carmen Miranda, porque afinal de contas o mundo não se acabou nem o sol nasceu antes da madrugada. E ainda que beijasse a boca de quem não devia e pegasse a mão de quem desconhecia, demonstrou que ainda tinha dentro de si a alegria de quem samba para deixar de padecer e, aliviado, cantou em alto e bom som para todo morro ouvir: “Salve o prazer, salve o prazer”.

Anos depois, já na alcova da Praia de Icaraí, em Niterói, num longínquo Natal, ao recordar-se do episódio, descobrira que a felicidade seria apenas um brinquedo de papel. Quando anoiteceu e o sino gemeu, o solitário poeta pensou que se todo mundo fosse filho de Papai Noel... Todavia, mesmo que não o sejamos, nesta festiva data de aniversário parabenizo-o por reunir em primoroso recital os singulares valores desta terra bronzeada, à luz de uma expressão pátria que envaidece os corações brasileiros ao clamar para se esquentar os pandeiros e iluminar os terreiros, que nós queremos sambar em sua magistral companhia, ó meu nobre mestre Assis Valente!...

Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e de ‘O enigma Diadorim’. wanderlourenco