Ponte continental integra Peru ao Brasil

Com o surgimento da Revolução Industrial iniciada na Inglaterra no século 19, houve paulatinamente um aumento na quantidade e no peso dos produtos a serem transportados. Como consequência, surgiram as primeiras locomotivas a vapor, as estradas de ferro e as pontes metálicas convencionais e depois as do tipo pênsil, onde se enquadra a Ponte Continental, sobre o Rio Madre de Dios, na cidade de Puerto Maldonado, província de Tambopata, no Peru.

Alguém pode perguntar: qual é a importância dessa ponte e o que ela tem a ver com o Brasil? A resposta é simples: ela é parte fundamental na integração do Peru (oceano Pacífico) com o Brasil (oceano Atlântico) através da Carretera Interoceánica Sul, que interligou definitivamente os dois países amigos através de uma moderníssima rodovia que se inicia na capital Lima, passando pelos Andes (4.275 MSNM), e chega a qualquer ponto do Brasil.

A Ponte Continental tem uma história curiosa. Em 1978, o Ministério de Transporte y Comunicaciones – MTC comprou uma ponte pênsil (colgante, em espanhol) da empresa austríaca Waagner-Biro para ser construída, onde hoje está a ponte atual. Por incrível que pareça, a ponte não foi executada, e a estrutura metálica de 2.500 toneladas ficou armazenada por mais de 30 anos, inicialmente em Arequipa e depois em um depósito do aeroporto de Puerto Maldonado, até dezembro de 2010 (algumas peças a céu aberto).

Em 2006, a obra da ponte foi contratada através de Licitação Pública Internacional a um Consórcio de empresas, sendo estipulado o prazo de 30 meses para execução. Dada a Ordem de Serviço (OS), a construção da ponte começou no dia 7 de julho daquele ano. Meses depois, a obra foi paralisada, sendo que foram executados somente os pilares de concreto e os blocos de ancoragem dos cabos, nas margens esquerda e direita. Enquanto isso, as obras dos 649km dos tramos 2 e 3 da Carretera Interoceánica a cargo da Conirsa (Odebrecht Participaciones e Inversiones, Constructora Norberto Odebrecht S.A. Peru, 70%, subsidiárias da Odebrecht América Latina e Angola; Graña y Montero S.A., 19%; JJC Contratistas Generales S.A., 7% e Ingenieros Civiles y Contratistas Generales S.A, 4%, do Peru), andavam a passos largos para a sua culminação.

Por incrível que possa parecer, a Ponte Continental que fica no tramo 3 não fazia parte do escopo do contrato inicial da Carretera a cabo da Conirsa. Ou seja, do jeito que estava planejado, a população continuaria isolada. Felizmente, o governo peruano através da Adenda nº 5 do Contrato de Concessão da Carretera autorizou a Concesionaria IIRSA SUR a execução da ponte, e a Ordem de Serviço foi dada no dia 29 de outubro de 2009. No entanto, surgiram obras adicionais. A Conirsa, por questão de segurança, tinha que fazer uma ampla e criteriosa inspeção das peças metálicas estocadas há mais de 30 anos. Após esse procedimento, os cabos principais de sustentação foram substituídos por outros novos, e algumas peças tiveram que ser fabricadas. Ademais, os blocos de ancoragem, já construídos, tiveram que ser reforçados.

No dia 7 de setembro de 2011, menos de dois anos depois da OS dada à Conirsa, e após liberação do Ministério de Transportes y Comunicaciones (MTC), a belíssima Ponte Continental foi liberada para o trânsito. Com os seus dois pilares de 74 metros de altura, um vão de luz de 528 metros – 320m, central, e 104m em cada margem – e com comprimento total de 722,95 metros, é a maior do Peru.

O diretor de Contrato da Conirsa, Guilherme Borges de Queiroz, definiu com propriedade a importância da obra: “A conclusão da ponte permitiu dar continuidade aos 649 quilômetros de vias asfaltadas em concessão, viabilizando uma melhor operação da concessionária no sentido de prestar um melhor serviço ao usuário durante os próximos 20 anos de concessão, pois reduzirá o tempo de travessia do Rio Madre de Dios em pelo menos 30 minutos, além de eliminar o custo cobrado pelos serviços desta travessia, que variavam de US$ 7 a US$ 40, dependendo do tipo e tamanho do veículo. A conclusão da ponte também beneficiará a integração das cidades do Departamento de Madre de Dios com sua capital, Puerto Maldonado, a integração destas cidades com as demais regiões peruanas, além de melhorar as condições necessárias para continuar o processo de integração social e econômica entre Brasil e Peru”.

Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor, formado pela Fundação Mineira de Educação e Cultura, com especialização em materiais explosivos, estruturas de concreto, geração de energia e saneamento