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Portugal, a Europa e a Troika

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Os portugueses estão, cada vez mais, confusos e pessimistas. No início do outono as dificuldades apertam e tocam a quase toda a gente. Passos Coelho, honra lhe seja, tem falado verdade aos portugueses e não lhes esconde que o pior está ainda para vir. O que assusta as pessoas. Como, aliás, no mesmo diapasão, o ministro das Finanças. Ambos dizem que é preciso respeitar as exigências da Troika. Ou seja: reduzir a dívida, que parece crescer de dia para dia, com os novos buracos que vão aparecendo e não só na Madeira.

Mas não nos explicam como vamos sair da crise, se a recessão vai aumentar, bem como o desemprego e a pobreza. Por este andar, a dois anos de vista, vamos estar pior do que hoje. Para que servem, então, os sacrifícios que nos exigem? Esta é a grande interrogação que os portugueses fazem a eles próprios e para a qual é necessário encontrar uma resposta clara. Atenção! Se não lhes for dada, crescem as inquietações, aumenta a agitação social - a curto prazo - e podemos vir a deparar-nos com o desespero e a revolta.

É certo que a União Europeia não nos tem dado grande apoio. Não somos, aliás, exceção. Fez-nos um empréstimo, sujeito a juros altíssimos, num momento particularmente agudo para os bancos, quando estávamos à beira da bancarrota e em plena crise política. Depois mandou-nos a Troika, com as exigências já referidas, respeitadora dos mercados especulativos, como se estes se devessem impor aos Estados soberanos e não o contrário. Sem pensar no nosso futuro, a mais de dois anos de vista.

A Troika é constituída por bons alunos da Escola de Chicago. Por isso, exige cortes, sem critério, em tudo o que é social: no Serviço Nacional de Saúde, na Educação, na Ciência e na Cultura, nas pensões de reforma e na dignidade do trabalho.

Devemos nós obedecer à Troika sem refletir? Mas quem manda na Troika? A Comissão Europeia, cujo presidente Durão Barroso, finalmente, fez um discurso contra a corrente economicista, lúcido e inspirado; o Banco Central Europeu, cujo presidente, Jean-Claude Trichet, também, contra a corrente, tem vindo a ajudar os Estados em dificuldade; e o FMI, que foi a primeira instituição financeira internacional a compreender a crise global e a saber que não se resolve com a aplicação de critérios neoliberais, mas sim evitando a recessão e mantendo as políticas sociais, que deram à Europa quarenta anos de prosperidade e de paz.

Há múltiplos sinais de que a União Europeia, forçada pela crise e à beira do abismo, vai ser obrigada a mudar de política. Quer a chanceler Merkel e o presidente Sarkozy queiram, ou não. E a Troika vai ficar na mesma, espartilhada nos seus critérios neoliberais? Não acredito. Porque a Europa, se não muda, desagrega-se e perde todo o crédito internacional que ainda tem. Representaria, isso, um recuo civilizacional tremendo.

Nos próximos tempos vamos assistir, julgo, a grandes mudanças, e não serão, espero, todas no mau sentido. Estejamos, pois, atentos e com os olhos e os ouvidos bem abertos...

* Mário Soares é ex-presidente de Portugal