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Com as calças na mão

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Como responder a determinadas perguntas que nos deixam "com as calças na mão", como dizem no popular? Foi com esta incerteza que eu me senti ao ser inquirido, durante uma aula palestra, por um aluno do ensino médio da rede pública estadual. Ressalto que o jovem em questão estuda em escola pública, e não o faço de forma pejorativa. Muito pelo contrário. Afinal, isso demostra que, embora muitos governantes continuem tentando transformar as escolas em "depósitos" e "fábricas" de mão de obra barata para o mercado, alguns alunos conseguem superar a doxa e enxergar a luz que mostra a saída no final do túnel.  

Na ocasião, abordei um autor mais atual que os apresentados nos livros didáticos utilizados ao longo de três anos consecutivos e que, muitas das vezes, ficam totalmente defasados, já que os professores só podem escolher os selecionados e oferecidos pela Secretaria de Educação. Fiz a leitura e alguns comentários sobre o conto "Ratos", de Luiz Ruffato, com a finalidadede demonstrar a importância da leitura e destacar como a literatura é importante para o crescimento pessoal e intelectual do homem, abordando, assim, o tema escolhido pela escola de Nilópolis, na Baixada Fluminense, durante a semana de leitura organizada pelos professores de língua portuguesa e literatura brasileira. 

Mostrei para os alunos que aliteratura não é "uma cópia do real", que a narrativa que havíamos acabado de ler era ficcional, ou seja, produto da criação de um escritor que sabe que "a literatura mais verdadeira é aquela que se sabe a mais irreal", já que é essencialmente linguagem.  Afirmei que ela é a procura de um estado medianeiro entre as coisas e as palavras; tensão de uma consciência induzida e restringida pelas palavras: "um poder ao mesmo tempo absoluto e improvável", como afirma Roland Barthes. É claro que não expus com estas palavras, mas a compreensão dos alunos foi imediata e até muito melhor que a de muitos alunos do curso de letras. 

Foi então que uma jovem, após conversar com os colegas sobre os meus comentários de que a literatura é uma ficção, levantou-se e perguntou como eu podia explicar o fato de o texto de Luiz Ruffato narrar alguns acontecimentos ocorridos com alguns de seus amigos e até mesmo com uma de suas primas. Como eu poderia explicar por que a miséria apresentada naquele texto era a mesmade muitas comunidades que eles conheciam e com as quais muitos conviviam no seu dia a dia? Como a ficção pode abordar o mesmo descaso com a saúde, por exemplo, em que o único hospital existente não atende por falta de médicos, equipamentos e infraestrutura?

Manoela fez uma série de comparações entre o ficcional e o real, com os olhinhos fixos em mim, tendo nos lábios o lindo sorriso de adolescente, com a certeza de que eu daria uma resposta convincente e baseada em um grande pensador ou teórico. Enquanto ela falava, me senti como a mãe, personagem de Ruffato, que ao se prostituir "encaverna-se, inoculando sonhos" diante darealidade que nos é apresentada. E quando aquela jovem terminou respondi simplesmente que talvez tudo não passasse de uma coincidência. 

Será? Como mudar este cenário social e educacional? Tudo isso me fez lembrar que nós, professores, que atuamos também na rede pública estadual, fomos chamados de "vagabundos" pelo nosso governador, que mandou a tropa de choque da PM jogar bombas e disparar com armas de fogo sobre quem se manifestava contra os baixos salários, as péssimas condições de trabalho e a falta de políticas educacionais voltadas para o resgate dos nossos jovens. 

Essa mesma truculência foi utilizada durante a ocupação do Complexo do Alemão e de outras comunidades dominadas por traficantes, que possuíam armas mais eficazes que as da polícia. Não podemos esquecer que muitos desses traficantes foram cooptados pela "sedução" negativa do tráfico, porque o atual modelo de educação pública não foi capaz de fazê-lo. Por isso, eles viraram as costas e se transformam apenas em novos números na estatística da evasão escolar. Isso nos leva à seguinte reflexão: existe algo de muito errado em nosso sistema educacional, pelo menos para uma parcela bastante representativa da população.