A corajosa decisão do Banco Central

            Finalmente, o Banco Central do Brasil deu uma tacada na taxa de juros (para baixo), que ironicamente não agradou a o resto do mundo, gerando uma enorme polêmica. Para o empresário local foi uma medida que teve dois impactos: a) reduz a entrada de dólares em nosso mercado aliviando o “empanturramento” de moedas, voltando nossa moeda, o real, por efeito, a se desvalorizar, sendo melhor para nossos exportadores; b) reduz os custos dos juros para o empresário local, gerando mais espaço para o mercado interno, ou seja, a compra mais barata de produtos estrangeiros começa a não ser tão mais barato assim. O consumidor volta-se paara o nosso mercado interno, uma vez que, na comparação, nossa qualidade não mais deixa a desejar.

            A alegria dos países do Primeiro Mundo, em ver o Brasil absorver tanto dólares em nossa economia por parte dos investidores, não era mais nada do que auferir polpudos lucros com as altíssimas taxas (primárias) aqui praticadas, quando em seus países de origem nem chega a “pífios” um por cento. Por outro lado, com a enxurrada de dólares em nosso mercado, nossa moeda se tornou artificialmente hipervalorizada permitindo que os preços do mercado internacional ficassem mais atraentes dos que os nacionais. As compras no mercado internacional correspondem às exportações de seus países, o que para eles é muito bom quando seus mercados no momento estão encolhendo pela recessão mundial. A lógica de “empurrar” dinheiro para nós para comprar deles no mercado internacional parece que agora se inverteu. Nosso BC está atento para estas manobras, principalmente quando se tem a certeza de que a maioria destes recursos entra aqui via Bolsa de Valores, que, no primeiro momento de seus interesses especulativos, volta a seus países de origem. Esta é uma moeda altamente volátil. Embora difícil de ser controlado, o que nos interessa é investimento direto na economia, aquele que cria, diretamente, empregos e produção.

            Diante deste quadro dá para entender a gritaria, dos principais jornais do mundo, sobre a decisão do nosso Banco Central em tirar o doce de mel que vinham usufruindo com o Brasil pelas razões acima expostas.

            A falácia de que com juro mais baixo levaria o Brasil a uma nova e perigosa inflação é uma mera especulação, pela redução da oportunidade de ganhos que vinham auferindo. Existem muitas outras medidas macroeconômicas para segurar a inflação, em que uma delas (embora altamente impopular) é aumentar as taxas de impostos, outra redução do déficit público e por aí vai. Reduziria os recursos disponíveis nas mãos da população, por efeito —  redução da demanda agregada — e os preços logo cairiam para se ajustarem.

            Tudo isto está sendo possível por termos um cacife de 350 bilhões de dólares em reservas internacionais. Valeu o sacrifício talvez de milhões de brasileiros, com seus minguados salários do passado. Está na hora de trocarmos a governança política por uma governança pragmática.

            Desde a década de 70, com a interpretação friedmaniana de que a política monetária teria seus efeitos confinados a curto prazo, isso levou muitos economistas a aceitarem como um mecanismo útil (ad hoc) para garantir a estabilidade econômica. Posteriormente, foi reforçada pelo Consenso de Washington, como uma “despolitização”  da política econômica sob a alegação de que o Poder Executivo sempre é irresponsável e atua com viés inflacionário. Este problema vem desde a Idade Média, e os economistas neoclássicos têm levantado esta questão. Por outro lado, a corrente keynesiana entende que o Estado deva ser soberano pela administração monetária.

            A experiência da independência parece não estar dando resultado nos chamados países do Primeiro Mundo, pelo desespero em pedir “água” aos seus respectivos governos para que salvem a todos nesta crise financeira infindável que não estão conseguindo resolver.

            Aqui fica a grande pergunta: a independência foi dada pelo reconhecimento dos governos, pela sua fragilidade moral, ou a independência foi conquistada pela formidável força do poder financeiro que alcançaram as entidades que atuam nesta área?

Sergio Sebold  é economista e professor