Guerra é guerra!

        Nas guerras, os povos se unem em favor da pátria, muitas das vezes sem concordar até com os motivos que levaram à solução extrema. A história está cheia de exemplos. No Brasil, hoje, temos uma guerra que deve unir a nação, acima das paixões e das idiossincrasias, sob pena de entrarmos em processo imprevisível, se não com alta possibilidade de injustiças e perseguições políticas.

        Trata-se da guerra contra a corrupção e a incompetência, que estão levando o país a perder mais uma oportunidade de deixar de ser “do futuro”. A corrupção se combate com instrumentos legais; não com bate-boca e julgamentos passionais. E mais: a praga não é privilégio de um partido ou de um segmento da sociedade. Infelizmente, está na sociedade como um todo, nos mandatos populares, nos cargos públicos, nas empresas e na economia informal, na fraude e na pirataria.

        A presidente Dilma está na linha correta e tem agido dentro de suas possibilidades. Merece apoio; não cobranças. Mas é preciso se criar, no Judiciário, na Receita Federal, na Polícia Federal, uma central de julgamento e acompanhamento de casos denunciados e dos quais a opinião pública deixa de ter notícias. As cem últimas operações da Polícia Federal de repercussão, nos últimos cinco anos, que fim tiveram? O dinheiro e os carros de luxo apreendidos, qual destinação? Os bens de envolvidos e seus familiares foram confirmados como legítimos pela Receita? E o Ministério Público não poderia colocar na internet o resultado de suas iniciativas semestralmente? 

        A população acha que tudo acaba no esquecimento, que a corrupção vence resistências, que o dinheiro apreendido some, os carros apreendidos têm destinação incerta. E os envolvidos ficam impunes, soltos, livres e leves como o senhor Battisti. Nos grandes centros, parte da população se surpreende encontrando, nas ruas e nos locais de luxo, nomes saídos não das colunas sociais como antigamente. Mas, sim, das páginas policiais.

        A mídia, que é responsável por boa parte das denúncias, em exemplar serviço prestado à sociedade, também não faz uma retrospectiva sobre o que foi apurado e o que está sendo escondido. Pelo visto, Valdomiro Diniz não é um caso singular. Existem centenas pelo Brasil. E ninguém cobra.

        A reforma do Código Penal é fundamental para encurtar a tramitação dos processos e evitar recursos que levam à impunidade. Também merece um controle externo o Judiciário, uma vez que os casos se avolumam e os afastamentos são feitos parcimoniosamente. E a farsa de se escolher um juiz Nicolau e um Salvador Cacciola para se fingir que existe uma ação real contra a malversação de recursos públicos. O juiz parece que agiu só, não tinha nenhum aliado no Planalto, para onde telefonava com frequência, mesmo aposentado e apenas respondendo pela obra superfaturada. O senhor Cacciola foi condenado por ter pedido dinheiro ao Banco Central, como se pedir fosse crime. E, se obteve por vias ilegais, suborno, por exemplo, deveria ter outro lado a ser julgado. São dois casos vergonhosos, e ambos, acusados lamentavelmente, nunca se insurgiram contra esta discriminação.

        Nesses protestos que estão nas cartas aos jornais, nas postagens de internet, devem ser mais pragmáticos e menos emocionais. Não queremos aqui protestos inconsequentes que estão correndo o mundo, levando destruição, mortes, fome e ruína. Não é assim que se resolvem as coisas. Nessa guerra, vale tudo. Até certo marketing dos que têm o dever de apurar, promovendo o balanço que o Brasil aguarda. A luta é dupla: contra a corrupção, mas também contra a impunidade.

Aristóteles Drummond é jornalista