O perigo amarelo

         O êxtase do prazer de consumo está contaminando toda a sociedade, tanto do Brasil como do mundo, que acabará por se consumir a si mesmo. Estamos vivendo a euforia de preços baixos, principalmente aqueles ligados a importação, tudo por conta de um câmbio hipervalorizado. Embora o Brasil tenha sido prudente na sua política macroeconômica, deverá dar atenção também pelo lado da microeconomia, mais particularmente o empresarial. Sendo aceito o Brasil como um novo personagem no tabuleiro da economia mundial, está na hora de mostrar também suas cartas.

            A grande euforia da sociedade está sendo a oportunidade de acesso a bens de consumo que antes só era possível para as classes altas e médias. Muitos produtos eletrônicos (apenas como exemplo), que eram inacessíveis para as classes C, D e E, agora estão ao alcance das suas mãos, melhor, dos seus bolsos. Muitos que gostariam de ter acesso a celulares agora podem ter. Muitos que gostariam ter acesso a televisores de alta definição, agora, podem alcançar, assim por diante.

            Há dois anos comprei um PenDrive de 2G por R$ 80, um novo agora custa R$ 20 de 4G. Isso sem contar que houve também inflação no período. Os produtos chegam hoje a um terço dos valores originais. Isto permitiu o ingresso de milhões de pessoas no conforto da vida contemporânea. Nada contra. Entretanto, à medida que se importam produtos de consumo e serviços finais, está-se acabando com a indústria doméstica. Logo, teremos o desemprego em massa e milhões na miséria. Em nada adiantará convencer a sociedade a comprar mais produtos nacionais, enquanto os preços dos importados forem menores. Ninguém dará ouvidos.  Mesmo com a cara azeda, dos mandarins do mercado internacional, o Brasil neste primeiro momento deverá rever sua política aduaneira com urgência, para equilibrar os interesses da indústria local. Ou, por sua vez, rever sua política cambial, que está sufocando nossas exportações. A balela do mercado livre sempre foi bom para inglês ver, mas neste momento não o é para nós.

            A invasão de produtos chineses é uma realidade indiscutível, quando 1 bilhão e trezentos milhões de gafanhotos amarelos resolveram arregaçar as mangas para o trabalho, com espírito patriótico de 12 horas diárias, uma folga por mês e 12 dias de férias por ano. Tudo isso a um salário médio mensal de US$ 100, mais alguns custos irrisórios e lucro somente para reposição dos investimentos (por ser um país socialista) e ainda com tecnologia de ponta.

            Faz 200 anos que Napoleão Bonaparte fez uma profecia, que  está começando a realizar-se. Quando lhe informaram do fracasso da Inglaterra em conseguir um acordo diplomático e por trás acordos comerciais, ele disse: "Deixem a China dormir porque, quando ela acordar, o mundo vai estremecer".

            A China daquele futuro profético é a de hoje.  A  verdade é que, agora, tudo o que se compra importado é praticamente Made in China. Mesmo que se tenha rótulo de marcas e grafia ocidental, a produção física original tem origem na Ásia. Mas quem liga para esse fato quando já alcançou a qualidade exigida pela nossa cultura? Pelo que se sabe atualmente, ninguém. Agora é só.... aproveitar, E APROVEITAR! Depois, como será para os nossos filhos e as futuras gerações que ficarão na miséria?

            Por ironia da história, eles dominarão o mundo sem armas e sem sair de casa. 


Sergio Sebold é economista e professor de pós-graduação da Uniasselvi –  Blumenau (SC)