Do Atlântico ao Pacífico pela Interoceânica Sul

Com a conclusão dos trechos 2 e 3 (649 quilômetros) da Carretera Interoceánica Sur, em território peruano, já podemos sair do Brasil (Oceano Atlântico) e chegar com toda a segurança a Lima, capital do Peru, no Oceano Pacífico, fato esse que reforça, ainda mais, os laços de amizade e integração entre os dois países.

Este sonho, acalentado durante décadas, começou a tornar-se realidade na Reunião de Presidentes da América do Sul, realizada em Brasília, entre os dias 30 de agosto e 1º de setembro de 2000, quando foi discutida a Iniciativa para a integração da infraestrutura regional sul-americana (IIRSA).

No mesmo ano, em Montevidéu, o Comitê de Coordenação Técnica da IIRSA, composto pelo BID, pela CAF e pela Fonplata, apresentaram o Plano de Ação para a IIRSA, que identificou nove eixos prioritários de integração e desenvolvimento (sendo três em território peruano) e seis processos setoriais necessários para otimizar a competitividade e sustentabilidade da cadeia logística (fonte: www.iirsa.org).

A Carretera Interoceánica Sur está inserida no Corredor Vial Interoceánico Sur (CVIS) e é composta de cinco trechos num total de 2.600 quilômetros (para facilitar a leitura adotarei doravante a abreviação km).

O trecho 1, sai de Puerto de San Juan de Marcona (próximo de Lima) até Urcos, com extensão de 763 km que, quando da realização da licitação da concessão, estava totalmente asfaltado, necessitando de reabilitação e manutenção. O trecho 4, entre Azángaro e a Ponte Inambari, com 306 km, necessitava ser asfaltado. O trecho 5, entre Matarani e Azángaro e Ilo e Juliaca, com extensão de 814 km, tinha 752 km nas mesmas condições do trecho 1, sendo que 62 km tiveram que ser asfaltados.

Os trechos 2 e 3, com 649 km de extensão, nada mais eram do que um caminho de terra (trocha, em espanhol), assim divididos: 1) Trecho 2: 246 km, entre Urcos e a Ponte Inambari (departamento de Cusco); 2) Trecho 3: 403 km, entre a Ponte Inambari e a cidade de Iñapari, na fronteira com o Brasil (Assis Brasil, AC), passando pela cidade de Puerto Maldonado, onde foi construída a belíssima ponte (pênsil) Continental sobre o Rio Madre de Dios (que pertence ao departamento de mesmo nome), com extensão de 723 metrosa maior do Peru, outro desafio realizado depois de 30 anos de espera.

Estes dois trechos, agora totalmente asfaltados e sinalizados, foram contratados sob o regime de concessão através do sistema de Parceria Público-Privada (PPP), com prazo de 25 anos à Concessionária Interoceánica Sur, composta pelas empresas Odebrecht Participaciones e Inversiones, Constructora Norberto Odebrecht S.A. Peru, 70% (subsidiária da Odebrecht América Latina e Angola); Graña y Montero S.A., 19%; JJC Contratistas Generales S.A., 7% e Ingenieros Civiles y Contratistas Generales S.A, 4%, do Peru, que por sua vez constituíram a empresa Conirsa para a construção, manutenção e operação dos citados trechos.

Tive a oportunidade de percorrer de ponta a ponta estes dois trechos e posso afirmar com toda a convicção que foram os que tiveram a execução mais difícil, notadamente o trecho 2, com terreno acidentado e altas declividades, pois o mesmo atravessa a Cordilheira dos Andes, a uma altitude de 4.755 msnm em Abra Pirhuayani, com geleiras e temperaturas que alcançam até 20 graus negativos, somada ao ar rarefeito das grandes altitudes.

Durante o pico da construção dos dois trechos mais de 7 mil pessoas trabalharam na obra, sendo que 70% eram moradores das regiões por onde passa a Carretera e utilizados 1.200 equipamentos pesados. Uma logística monumental.

Para que o leitor tenha uma ideia de como era o caminho existente antes de os dois trechos serem asfaltados, o tempo mínimo para o trajeto de 649 km era de 24 horas e podia chegar até a uma semana ou mais, dependendo da estação! Hoje, esse mesmo percurso é feito em somente 11 horas, com total segurança e desfrutando de paisagens deslumbrantes dos Andes.  

Paralelo à execução dos trechos 2 e 3 foi criada e implementada a “Iniciativa Interoceánica Sur – iSur”, que é uma aliança estratégica entre várias empresas e que tem o objetivo de contribuir para o desenvolvimento sustentável e a conservação das áreas de influência dos citados trechos (assunto para um próximo texto).

Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor