Às vezes, ao longo do ciclo sazonal das quatro estações, ocorrem períodos, em geral curtos, durante os quais as flutuações térmicas são tão acentuadas que parecem sugerir que o clima está se alterando. De fato, nesses intervalos podem ocorrer dias muito quentes no inverno e, ao contrário, dias muito frios em pleno verão.
Estas anomalias climáticas passageiras, que acontecem todos os anos, dão origem à afirmativa dos leigos de que o "tempo anda louco", pois as estações estariam se alterando em consequência do "desmatamento da Amazônia", da "poluição industrial", das "experiências nucleares". Estas e outras assertivas semelhantes mostram como são precários os conhecimentos astronômicos e meteorológicos do homem comum.
Com relação às quatro estações do calendário e as suas relações com o clima, é necessário esclarecer algumas noções fundamentais. O nosso calendário é regido pelo movimento aparente do Sol, e os seus quatro pontos notáveis são os solstícios (que ocorrem por volta de 21 de junho e 21 de dezembro, respectivamente, o dia mais curto e o mais longo do ano no Hemisfério Sul) e os equinócios (que acontecem nas vizinhanças de 20 de março e 21 de setembro, os dois únicos momentos do ano nos quais a duração do dia é igual à da noite). Do ponto de vista energético, teoricamente, o solstício de junho corresponde ao mínimo de energia solar recebida no Hemisfério Sul, devendo, portanto, sinalizar o meio do inverno e não o início.
Na realidade, do ponto de vista térmico, a atmosfera reage com certa inércia e/ou retardo, em particular devido ao fato de que as superfícies oceânicas são superiores às continentais. No Hemisfério Sul esta relação é de 80 por cento de superfície oceânica, enquanto para o Hemisfério Norte o valor é de 60 por cento. Como o solo se aquece e se resfria cerca de duas vezes mais rapidamente do que a água, as camadas superiores dos oceanos funcionam como um gigantesco reservatório de calor que compensa as flutuações de temperatura no inverno. No Hemisfério Norte, esta inércia térmica pode ser determinada estatisticamente. De fato, a temperatura mínima anual, nas regiões continentais, situa-se nas vizinhanças do dia 10 de janeiro, ou seja, quase três semanas após o solstício do inverno. Tal ocorrência é registrada tanto nas áreas continentais da Europa como nas da América do Norte. Em consequência desse mínimo térmico, e considerando que cada estação tem uma duração de 91 dias aproximadamente, o inverno meteorológico deveria iniciar-se em 25 de novembro e terminar em 25 de fevereiro. Todavia, em climatologia, por razões de comodidade, considera-se que a estação fria, no Hemisfério Norte, está compreendida entre 1 de dezembro e o fim de fevereiro. Desde modo, a primavera inicia-se em 1 de março; o verão, em 1 de junho e o outono, em 1 de setembro. Tais valores não são válidos para as regiões continentais banhada pelo Atlântico, onde o mínimo térmico é ainda mais retardado, cerca de um mês, de tal modo que os dias mais frios ocorrem em meados de fevereiro, pois a ação das superfícies oceânicas é mais acentuada nessas regiões.
Por este motivo, em nosso Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica, no verbete referente às estações do ano, indicamos o solstício do inverno como o marco inicial do inverno astronômico assinalando que deveríamos adotar para começo do inverno meteorológico o dia primeiro de junho.
O comportamento médio de atmosfera não impede que as anomalias climáticas, marcadas por importantes desvios de termometria e/ou pluviometria, possam se produzir em quaisquer momentos ao longo de todo o ano. Tal variabilidade é aliás uma das características das latitudes médias. Por exemplo, durante o inverno no Hemisfério Sul, a permanência do anticiclone subtropical, cujo conteúdo em vapor d'água pode atingir valores bastante baixos, ocasiona às vezes temperaturas um tanto elevadas. Nestas ocasiões, no inverno, temos uma espécie de verão ao qual só falta um Sol um pouco mais alto no céu. Ao contrário, durante o verão no Hemisfério Sul, a chegada de massas de ar frio de origem polar pode ocasionar, às vezes, a ocorrência de temperaturas muito baixas, que induzem os leigos a acreditar numa espécie de inverno com o Sol muito elevado no céu.
Tais anomalias da ordem de algumas quinzenas de dias, às vezes de até quase um mês, são suficientes para o povo sair dizendo que não existem mais estações como outrora.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, astrônomo, é escritor e autor de mais de 90 livros, dentre eles 'Anuário de astronomia e astronáutica 2011