Itamar Franco, um brasileiro

Conheci o ex-Presidente Itamar Franco na manhã ainda bem cedo do dia 15 de março de 1990. Eu havia sido selecionado pela Marinha para servir como assessor militar na Vice-Presidência da República. Fui buscá-lo no seu apartamento funcional de Senador e juntos fomos até a Casa da Dinda,da onde partiu o comboio em direção à Praça dos Três Poderes para as solenidades de posse. O Itamar que conheci naquele dia foi o mesmo durante os 13 anos em que fui seu assessor e Ajudante-de-Ordens e posteriormente nos cargos que me nomeou no Governo de Minas Gerais, em especial para dirigir a Prodemge: um homem correto, simples, respeitoso, inteligente, de grande sagacidade política, patriota e do tipo que não leva desaforos para casa. Olhava – como se deve olhar – as pessoas olho no olho, e observei muitas vezes como num simples e rápido olhar Itamar era capaz de interpretar o interlocutor. Impressionante. 

Recordo-me perfeitamente da última reunião ministerial do ano em dezembro de 1991, quando se assistiu o Sr. Collor de Mello cumprimentar o diretor do tesouro pelo superávit alcançado e ao mesmo tempo comemorar uma decisão judicial suspendendo o reajuste das aposentadorias e pensões pagas pelo INSS. No regresso à pé para o anexo II do Palácio do Planalto, aonde ficava o gabinete, para minha surpresa Itamar falou baixinho e com ar de indignado: “Comandante, o que achou?” Respondi-lhe: “fiquei muito chocado”. Sua resposta: “nunca mais volto aqui, a não ser que seja convocado.” 

Registre-se que Itamar comparecia às reuniões do ministério como convidado apenas. Sou testemunha da sua conduta ética durante o processo de impeachment em 1992. No começo desse ano o então Ministro da Marinha, Almirante Mário Cesar Flores, convidara Itamar para uma visita à Amazônia, quando passamos 3 dias à bordo de um navio patrulha fluvial, e foi possível ver in-loco a importância do trabalho feito pelas Forças Armadas na região. Poucos minutos antes de embarcarmos uma ligação veio de Brasília avisando que a revista VEJA traria entrevista bombástica de Pedro Collor de Mello, e adiantou-se o conteúdo. Itamar manteve a programação porém seu semblante mudou: apesar de estarmos a muitas milhas náuticas de distância da base de Manaus, parecia sentir o que vinha pela frente, como se fosse uma premonição. Passamos o fim-de-semana navegando pelo rios, e ao retornar fomos direto para o aeroporto, aonde havia um batalhão de jornalistas, bem diferente de quando nossa chegada à Manaus poucos dias antes. 

O Itamar após esta viagem foi outro, que só fez crescer no meu respeito. Enfrentou várias tempestades com timão firme, soube negociar bem e de forma limpa com o Congresso após ser empossado, fez um governo ético e sem ares imperiais, bem diferente do seu antecessor. Fez a feliz escolha do respeitável Senador Fernando Henrique Cardoso como ministro das Relações Exteriores e depois da Fazenda, assinou a medida provisória do plano Real, e depois apoiou-o na eleição como seu sucessor. Este apoio porém foi discreto e ético, muito diferente da forma escancarada com que o ex-Presidente Lula atuou para transferir votos para a Presidenta Dilma. Itamar sempre procurou não misturar a insituição Presidência da República com as campanhas eleitorais. 

Em 1999, assumiu o governo de Minas Gerais, e mais uma vez enfrentou mau tempo. Recebera um Estado praticamente falido, com uma dívida impagável com o Tesouro Nacional devido sobretudo ao “saneamento” feito nos bancos estatais antes de serem privatizados no ano anterior. Foram 4 anos de dificuldades, e os historiadores ainda irão escrever um dia que Itamar fez em Minas como havia feito em Brasília: entregou o governo ao sucessor muito melhor do que recebera. Foi assim ao passar o cargo a Aécio Neves, cujo propalado “choque de gestão”, uma expressão inventada por algum marqueteiro, na verdade se iniciara com Itamar. Claro que Aécio teve grandes méritos, mas creio que Itamar merecia ter tido em vida mais reconhecimento público pela sua gestão à frente do Palácio da Liberdade, e não apenas o apoio que recebeu para sua recente eleição ao Senado Federal, oito anos depois. Mas a política é isto. A História mostra que há homens públicos que só são verdadeiramente reconhecidos depois de sua morte e muitos anos depois, dentro de uma perspectiva histórica.  Que Deus cuide bem de sua alma, Presidente Itamar Franco. Sua missão nesta terra foi concluída, e seu bom exemplo ficou para muitos. As saudades ficam.  Descanse em paz.

Antonio Carlos Passos de Carvalho é ex-chefe da ajudância-de-ordens do presidente da República (1992-95) e ex-diretor presidente da Companhia de Processamento de Dados de Minas Gerais, Prodemge