Educar para a vida é o que importa

Antes esclareço que jamais dei aulas em minha vida, pelo menos formalmente. Mas, em mais de 25 anos na minha profissão de jornalista, obviamente ideias formuladas, redigidas e publicadas atingiram públicos razoavelmente grandes, formados principalmente pelos leitores de jornais, revistas e agora dos sites. 

Trata-se de uma plateia heterogênea em tantos aspectos (idade, instrução escolar, consciência política, posição social, etc). 

 Por isso, queiramos ou não, nos tornamos também uma espécie, não diria de professor, no sentido de ensinar alguém, mas no aspecto de abrir campos para discussões em que os leitores possam formular opiniões, concordando ou não; criticando alguns aspectos, elogiando outros, mas acima de tudo participando e contribuindo ao diálogo e ao entendimento, que em tese deveriam estar entre os maiores objetivos dos seres humanos.

 Há algum tempo - acredito que eu tenha escrito alguma coisa sobre o assunto - ouvi duas senhoras comentando sobre Educação de Jovens Adultos (EJA) dentro de um ônibus. As aluninhas não questionavam o fato inquestionável da importância do aprendizado, seja lá em qual idade for ou em qualquer fase da vida. Uma delas estava visivelmente desesperada e prestes a desistir dos estudos, pois sua frágil saúde andava ainda mais abalada por voltar a ter, naquela altura da vida, preocupações com provas, entregas de trabalhos, cobranças e tanta coisa que não suportou na infância e juventude, levando-a a desistir de estudar.

Fiquei meditando sobre aquilo e imaginando se governantes, técnicos e professores têm a dimensão das consequências entre o que é elaborado para se tornar ensino de massa, mesmo que produzido com a melhor das intenções, e a forma como o produto é recebido pela massa, mas especificamente o povo, a sociedade em geral, ou fatia dela. Não é o caso de a educação de adultos, ao invés de se preocupar com avaliações (que são importantes para jovens como verificação de resposta ao que foi ensinado ou para medir capacidade para mercado de trabalho), se preocupar com a utilidade do que é ensinado? Não é mais útil ao idoso alfabetizar-se para conseguir ler o nome do ônibus que toma, escrever o nome de sua rua, o próprio nome ou dos familiares, ao invés de ser carregado com uma gama de teorias, teoremas e problemas inúteis para serem cobrados numa prova, como se ele estivesse no ginásio ou no colégio? 

E a utilidade da informática, então? Aprender a ligar computador, navegar na internet, contatar pessoas pelo correio eletrônico (e-mail), só isso importaria, sem aquela preocupação de que ele tem de saber, exceto que pretenda se especializar, tudo de memória RAM, hardware, software etc, afinal, se habilitaria um usuário de seu próprio PC e não um técnico em computadores. Na minha modesta opinião, talvez mudanças simples tornassem mais atrativo o aprender para pessoas que tanto lutaram no passado, lutam pelo futuro, mas que agora só querem melhorar a qualidade de vida e não ter mais fontes de estresse em forma de provas e cobranças.

Edson Silva é jornalista. - [email protected]