Há muitos anos, o irreverente Nelson Rodrigues ousou sustentar, em sucessivos artigos, que a mulher gosta de apanhar. Choveram protestos de todos os recantos, desde os que levavam na troça e que eram minoritários, os que xingavam o meu amigo e primoroso escritor eromancista de uma família de escritores, como o Mário Filho, que renovou a crônica esportiva com artigos diários de uma coluna em O Globo.
Quase todos os dias encontrava Nelson Rodrigues na Câmara dos Deputados, antes da mudança da capital para Brasília e aos domingos na Tribuna da Imprensa do Maracanã.
Nelson Rodrigues enxergava pouco e não entendia nada de futebol. Torcedor do Fluminense, não conseguia acompanhar abola. Mas era uma prosa que esbanjava o grande autor de dramas para o teatro e de artigos sobre tudo e todos.
Entre as suas provocações, em uma única frase venenosa como mordida de cobra, sustentou que “a mulher gosta de apanhar”.Durante semanas respondeu no mesmo tom aos protestos nas centenas de cartas e telegramas que chegavam ao jornal. Nelson nadava de braçada: não era a surra brutal, as chicotadas que arrancavam sangue que as esposas, namoradas e amantes consideravam uma clara manifestação de ciúme. Mas o tapa, o beliscão, a palmada do ciúme do esposo, noivo, namorado ou amante.
Hoje, o Nelson Rodrigues estaria do outro lado. A violência boçal, covarde, indefensável que todos os dias é mostrada nosnoticiários da televisão, nos jornais, revistas, nas rádios e que clamam por um nova Lei Maria da Penha.
Mas é pedir demais ao pior Congresso desde a ditadura militar. Uma Câmara de desconhecidos nada ilustres e as rarasexceções.
A última esperança talvez seja o Senado. E não há mais tempo para esperar.