A crítica da nova geração

            “Vivemos numa crise.” A nova geração está a anos-luz não de seus pais mas de seus irmãos mais velhos... Quem não se sente um pouco desorientado com tantos diagnósticos que se pretendem, à maneira de Fukuyama, fundar um novo conceito a partir da ausência de outros? Quem não se cansa de ouvir que os jovens de hoje perderam toda percepção do que seria a boa educação, a verdadeira arte, o valor dos costumes, etc? O  “conflito de gerações” é tão novo quanto, vamos dizer, um plano de assassinato de um Brutos a seu pai adotivo...

            O que está acontecendo? Ora, simplesmente, está acontecendo. Quando se diz que o mundo dá voltas, não estamos nos referindo apenas a um movimento astronômico da terra. Simplesmente mudamos. E você pergunta: por que estamos sempre piorando? Não estamos sempre piorando, só não fomos suficientemente educados - e isso, sim, seria, no mínimo, alarmante, pois nos revelaria um ranço de conservadorismo - para tanta mudança num ritmo vertiginoso. Chamem isso de pós-modernismo, de capitalismo tardio, de nova onda, o que quiserem. Não o chamarei de nada, apenas o tratarei com um termo do dicionário que explica todos estes rótulos: História.

            Então, por que nos preocupamos tanto? Mas quem está tão preocupado? Os machistas que se sentem ofendidos pelas roupas coloridas de um Restart? Os criptoapocalípticos que acham a música dos nossos dias um sintoma da nossa "crise", e se entristecem lembrando que "no tempo da ditadura tínhamos artistas melhores", como se, apenas sob o terror de um pau de arara, saberíamos produzir cultura? Os críticos literários elitistas que veem em Paulo Coelho o autor-coveiro da literatura brasileira, como se escritores como um Machado de Assis e um Carlos Drummond de Andrade não tivessem passado pelas mesmas críticas? Quando dizem que não existe mais uma fenda entre a alta cultura e a cultura de massa, que a “baixa” cultura engrandeceu e tomou todos os recantos de produção, desde teatros, museus, cinemas etc, o que não se pode deixar de notar é a indústria que há por trás disto tudo. As massas viraram um grande negócio. Mostrar a favela virou uma espécie de stablishment para gente de sensibilidade artística preocupada tão menos com a democratização da cultura do que com aquilo que ela entende como papel social da arte.

            Não há nada de novo no céu da história senão o fato de que tudo na história é novidade, mesmo que, como uma vez escreveu Karl Marx completando Hegel, os acontecimentos se repitam primeiro como farsa depois como tragédia.  Mas até Marx achou o seu tempo um tragédia, depreciou-o? Como já disse, chamem do que quiser; a diferença  é: o comunista alemão não criticou sua época em nome de uma outra passada,  e o comunismo primitivo de que ele falava é antes uma lembrança do que um modelo a ser seguido.  Já os “trágicos da cultura” de hoje insistem em repor uma tradição violada, esquecida, profanada por não-sei-que geração que vai nascer daqui a duas horas e talvez morrerá depois que algum novo vídeo do YouTube alcance 1 milhão de visualizações. Procuramos um culpado, mas esquecemos que também fazemos parte disto tudo, e, se você acha que a sua parte está feita postando um comentário em algum vídeo, então o problema está na sua concepção de participação dentro dos meios sociais.

            O que há de preocupante nisto tudo é justamente certo vazio da crítica (aqui estou falando da critica “especializada”) que, parece ser esse seu pensamento, se espelha na "falta do que criticar" e acaba ruminando no mesmo campo onde ela vê os excrementos culturais se acumularem. Não termino aqui assinando um receituário nem fazendo um prognóstico de tempos bons ou ruins que poderão vir, pois ainda haverá História depois de Restart, mesmo que ela dê à luz mais um Fiuk.

* Historiador