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O discurso que falta

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            A visita do presidente Barack Obama criou expectativas nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Convém, no entanto, que elas sejam cultural e politicamente contextualizadas para avaliar até onde houve mudanças. Se há afinidades, há também diferenças nas visões, perspectivas e interesses das maiores democracias do Hemisfério, decorrentes não só da formação e evolução das duas nações como também da lógica de poder que condiciona a política da superpotência, um aspecto que pode proporcionar complementaridade às ações dos dois países em prol de um sistema internacional mais equilibrado. Mas ainda estamos longe disso, em boa parte devido à nossa complacência.

A política externa dos Estados Unidos é, no médio prazo, transideológica, flexível e multidimensional, procurando ocupar todos os espaços que se ofereçam para a consecução de seus objetivos, algo que Obama e os Clinton personificam à excelência. Apoiados num aparato diplomático-militar coeso que aposta na desarticulação e no fracionamento das estruturas político-administrativas e psicológicas de aliados, parceiros e adversários, os Estados Unidos influenciam questões em todos os quadrantes do planeta. Isso não impede que, eventualmente, essa formidável combinação de poder e conhecimento pareça desajeitada, truculenta e fora de contexto, e só o pensamento crítico de quem preza sua soberania pode colocar limites aos avanços norte-americanos.

Mariners prestam continência no gramado da Casa Branca, não no do Flamengo. A Rudolph Wilde Platz não é a Cinelândia, e a América do Sul não é frente da Guerra Fria, soando meio fora do tom um presidente norte-americano ensaiar um “Ich bin ein carioca”. A segurança americana revista ministros de Estado na “esplanada” em Washington, não na de Brasília. Além disso, a VAR-Palmares não era o Partido dos Panteras Negras, e a luta armada revolucionária no Brasil não tinha nada em comum com o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos, mesmo nas suas manifestações radicais armadas. Em suma, a programação do oba-Oba(ma) forçou a mão, equivocando-se no tempo e no espaço. Se fosse hoje, o discurso de Mr. Obama no Municipal caberia em Chicago, não no Rio de Janeiro, e há quase cinquenta anos outro “cara”, chamado John Kennedy, fez um, próximo ao Muro de Berlim, com sucesso difícil de ser repetido.

Uma melhoria das relações com os Estados Unidos se situa no marco do nosso interesse nacional.  O Brasil é uma democracia que antecede em muito a recente normalização política de 1985, sua evolução tem marcos inegáveis de progresso social, as enormes desigualdades do país são assumidas como desafio e, ao longo dos grandes conflitos do século 20, ele defendeu a democracia e a liberdade. Tem, portanto, história, cultura, sociedade, povo, riqueza, território e sonhos. Enfim, tudo para um discurso próprio.

O que falta a nós para proferi-lo? Até quando outros dirão o que somos, ou o que devemos ser?

 

* Hstoriador, foi delegado do Brasil na Junta Interamericana de Defesa, órgão de assessoria da OEA para assuntos de segurança hemisférica.