Existe hoje no indivíduo uma tensão permanente entre o desejo de viver livremente e a consciência dos limites da existência, o que gera uma pluralidade de sentimentos e situações conflitantes na vida social. Uma vida social que não se projeta especificamente no futuro tende a expressar prazeres apressadamente. A pressa é, ao mesmo tempo, dificuldade para perceber e dificuldade para ter cuidado. Como vai ter cuidado quem vive a toda pressa?
Suportar o peso pelo controle da existência produz nos indivíduos uma enorme fadiga. Qualquer estado de desânimo, tristeza, decepção ou frustração é caracterizado como depressão. O indivíduo é um ser social, o que gera a interdição de alguns de seus desejos. A satisfação de alguns desejos pode produzir a consideração do outro como simples objeto a ser utilizado para fins de contentamento, desconhecendo-lhe a existência. Se assim for, cada nova experiência é, para o indivíduo, uma forma de viver o momento presente com uma intensidade particular, de tal maneira que sua vida se transforma numa sequência de momentos fortes que tende a apagar a cronologia.
Quando desejamos, nosso horizonte de tempo e de ação parece limitar-se àquilo que, para nós, é desejável. A publicidade busca transmitir as características ou funções do objeto ao seu portador, de sorte que o poder ou valor associado ao mesmo transite para a pessoa do portador, que deixa assim de possuí-lo para tornar-se como ele. Todo desejo parece constituir uma expressão de meu ser; ele designa uma falta, e sua satisfação significará uma afirmação sobre as coisas, a provar um prazer que será justificado na medida em que revelar que consegui preencher essa falta.
Isso parece implicar a necessidade de agir rapidamente. Daí que para muitos a vida pode parecer uma espécie de corrida individual em busca de novidade, de exigência de performance, de bem-estar, de felicidade, de sucesso, na vã ilusão de que podem possuir, submeter e dominar o tempo segundo seus próprios desejos. Uma vez que o tempo se constitui como um elemento fundamental das interações entre os indivíduos, estabelece uma relação de poder: quem tem o poder controla o tempo. Observamos hoje a emergência de novas modalidades de organização da vida individual e coletiva a partir do registro da temporalidade que ofuscam o delineamento das fronteiras entre os objetos materiais reais e os virtuais.
Esse ofuscamento dos limites produz efeitos não somente entre tais objetos mas, sobretudo, em relação aos próprios contornos entre as esferas do privado e do público, acarretando novas maneiras de ser, de se comportar e de vivenciar e expressar os sentimentos.
Atualmente, as tonalidades afetivas parecem fortemente marcadas pela consciência de se estar à mercê dos acontecimentos. A imprevisibilidade de grande parte dos novos riscos, sobretudo desastres produzidos pelas consequências incontroláveis do desenvolvimento científico-tecnológico - como na usina nuclear de Fukushima, no Japão - acabam ocasionando um estado de insegurança permanente.
* Engenheiro