No dia 15 de fevereiro Fidel Castro reuniu-se com intelectuais cubanos e estrangeiros por mais de cinco horas e lhes pediu que “salvem” o mundo e a espécie humana. Fez um apelo para que assumam um papel ativo ante problemas ameaçadores como uma eventual guerra nuclear, as crises de alimentos provocadas pelas mudanças climáticas e a fome. Fez o pedido aos intelectuais em nome da humanidade, ameaçada pelas “colossais energias que os cientistas foram capazes de pôr nas mãos do homem” e pela própria capacidade autodestrutiva do ser humano. Não se trata de salvar a humanidade em termos de séculos ou de milênios: é preciso começar já. “Se alcançarmos que os intelectuais compreendam o risco que estamos vivendo neste momento, em que a resposta não pode ser adiada, talvez consigam persuadir as criaturas mais autossuficientes e incapazes que já existiram: nós, os políticos”.
Fidel declarou-se otimista. Acredita na preservação da vida humana. Os lutadores da paz e da justiça que assumiram as causas do povo, dos pobres e trabalhadores concordam com Fidel, sua análise e preocupações.
O século 21, felizmente, apresenta novidades. Por um lado, o capitalismo neoliberal, que parecia triunfante e invencível, está mordendo os próprios calcanhares à busca da sobrevivência. Não consegue sair da crise que ele mesmo criou. Os países mais pobres da América do Sul são os que vêm construindo modelos econômico-sociais alternativos, com valores anticapitalistas, ou modelos não necessária e exclusivamente de mercado. E estão se saindo melhor, apontando caminhos novos, com apoio e participação popular, com distribuição de renda, com democracia cada vez mais ampla, coisas nunca antes acontecidas na sua história. Pelo contrário, estes países e seu povo sempre serviram de bucha de canhão das elites locais e internacionais, ou meros depositários de riquezas que não usufruíam.
Por outro lado, as mobilizações nos países árabes contra ditaduras sempre sustentadas pelos países hegemônicos revelam a insensatez de um mundo onde poucos mandam em tudo e as fraquezas de uma ordem econômica onde o petróleo é mercadoria que pode mexer com dominações seculares, produzir instabilidade monetária mundial e muitas coisas mais. Este mesmo petróleo é o principal responsável pelas mudanças climáticas e fonte de controle de poucos sobre muitos.
À crise econômica em curso pode somar-se a crise do petróleo e da energia. Abrem-se, assim, duas possibilidades. Uma alertada por Fidel: guerra, talvez nuclear, na busca desesperada de manutenção do poder e da riqueza, misturada à insensatez de um mundo dependente de uma fonte energética que poucos possuem no fundo da terra ou do mar. A outra possibilidade é que a consciência de intelectuais, das pessoas que querem justiça e liberdade e do povo organizado leve a uma nova conformação política e socioeconômica internacional, guiada por novos atores e outros valores que não os do capitalismo usurpador da liberdade, movido à base do egoísmo, da depredação ambiental e do acúmulo desmedido de bens de poucos.
O tempo e a ação humana decidirão que caminhos serão efetivamente trilhados, se os da paz, se os da valorização do homem e da natureza, da harmonia do ser humano com o planeta, se o bem-viver indígena que, agora, mais que nunca, adquire sentido e pode mobilizar mentes e corações, ou não.
Estamos numa encruzilhada. Fidel tem razão. É preciso agir. O Movimento Fé e Política prepara o 8º Encontro Nacional em Embu das Artes, São Paulo, em 29 e 30 de outubro, com o tema Por uma sociedade do bem viver: sabedoria, protagonismo e política. A convocação é geral, para criar consciência e lutar junto, num sentido comum. Em cada comunidade, em cada país, em escala planetária.
* Assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República e da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política