Computadores e a educação pública

 

Há alguns anos, uma intensa polêmica vem se travando nos fóruns ligados à educação: o uso de computadores em ambientes escolares ajuda ou atrapalha a aprendizagem? Outra dimensão desta discussão coloca ainda o risco de antes de termos resolvido graves problemas como analfabetismo funcional em escolas, querermos pular etapas e informatizar em vez de ensinar. Afinal, os computadores garantem ou não a melhoria da qualidade da educação?

Na verdade, nem uma coisa nem outra. A presença da tecnologia da informação na escola, por si só, não induz a um aprendizado melhor, mas sua ausência tampouco ajuda, seja qual for o estágio atual da evolução do ensino no país. A questão só pode ser respondida adequadamente se considerarmos o que e para quem ensinamos.

A definição de um currículo claro deve ser componente importante de qualquer rede de escolas públicas. Não é possível que cada professor de crianças ou cada escola defina, de forma isolada, a cada início de ano letivo, o que será ensinado aos alunos. Com isso, teríamos configurada uma situação em que em um bairro se ensinam frações enquanto no outro a preferência recai sobre algum elemento das tradições locais. No mesmo sentido, o mesmo assunto poderia acabar sendo repetido em diferentes séries, em história, por exemplo, com prejuízo de outros, jamais tratados.

Não há computador em sala ou laboratório de informática que ajude a qualidade da educação se não houver um currículo que defina claramente o que será ensinado.

A outra face da questão é para quem ensinamos. No caso do Rio de Janeiro, são crianças e jovens de diferentes classes sociais, muitos oriundos de comunidades recém-pacificadas, outros ainda de áreas conflagradas. Cidade de contrastes, isso também se reflete na triste geografia do desempenho escolar. Uma coisa, porém, une jovens de diferentes meios: acesso a computadores. 75% dos nossos alunos têm computadores em casa e 66% deles acessam a internet diariamente de suas residências. Os demais o fazem a partir dos laboratórios de informática das escolas ou de lan-houses. Mais: quando perguntados em pesquisa do Instituto Desiderata em parceria com a prefeitura sobre o que propunham para tornar as aulas mais interessantes, uma grande parcela dos alunos (e dos professores também) propôs aulas mais dinâmicas, com utilização de novas tecnologias.

Resolvemos, então, juntar o currículo já definido e testado por mais de um ano e os recursos da Informática, e criamos a educopédia, um portal de aulas digitais, preparado por mais de 200 professores da rede com experiência de sala de aula, capacitados pela UFRJ. Estas aulas, que incluem jogos, vídeos, planos de aula do professor e testes, serão projetadas nas salas dos colégios, e os professores contarão ainda com apostilas para apoiar sua ação pedagógica. Mas não serão de uso obrigatório. O professor é a presença mais importante no processo educacional. Ele deve receber instrumentos para poder ter uma prática mais efetiva, mas ele é o grande maestro do processo de aprendizagem do aluno.

Testamos esta plataforma no segundo semestre de 2010, com bastante sucesso.  Em 30 escolas de 6º a 9º anos, utilizamos as aulas digitais de matemática e português. 81% dos alunos aprovaram as aulas, sendo que 34% consideraram-nas excelentes.  Mais de 80% afirmaram que elas ajudaram nas provas bimestrais que o município aplica. Agora, em 2011, nas escolas de ginásio (cerca de 400), teremos aulas digitais de todas as disciplinas.

Com este novo papel, de ferramenta na mão do professor para melhorar o ensino e permitir, por outro lado, mais autonomia para o aluno, que poderá rever as aulas (ou até adiantá-las) em casa ou no laboratório de informática da escola, os computadores certamente ajudarão na melhoria da qualidade do ensino. Os alunos, filhos de um mundo distinto daquele em que viveram seus pais, certamente irão sair ganhando.

* Secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro