O cansaço autoritário no mundo árabe

A queda do presidente Ben Ali, da Tunísia, repercute para além de um mero golpe de Estado no Oriente Médio e toda esta área mediterrânea, que manteve como monarquias, de fato, as presidências nascidas com a independência frente ao colonialismo europeu. São todos regimes em que os presidentes duram por décadas, sem horizontes efetivos para a sua mudança, na Argélia, na Tunísia, no Egito, independentemente do que digam as Constituições ou o seu simulacro eleitoral.

Patente, entre todos, é o caso de Mubarak, cujo filho já se vê como um herdeiro natural e incontestável. Ninguém se deu conta do impacto, crescendo semana a semana, da imolação de Mohamed Januz, em Túnis, num protesto sem volta pela restauração da democracia no país, e o afastamento do presidente Ben Ali. Tal sacrifício continua nestes dias no Cairo, pelo suicídio de Salah Mahmud, prefigurando uma reação em cadeia, num novo movimento cívico inesperado, da cultura islâmica, na cobrança da chegada das liberdades nesta área crítica à estabilidade internacional. O próprio Hezbollah perfilha o gesto do tunisiano-mártir e o vê como a nova forma de jihad contemporânea. Nem a guerra santa, nem o terrorismo à la Al Qaeda, mas a imolação e o sacrifício pessoal na chamada à consciência, na última doação ao empenho de radical mobilização coletiva. Horas antes da queda de Ben Ali, o governo parecia em firme controle da situação, e a rebeldia de rua não chegara a movimentos de massa, nem a exibições ostensivas do poder policial. O último discurso do presidente era de certeza na normalização e permitiria, inclusive, as clássicas promessas, a médio e a longo prazo, de aperfeiçoamento do sistema, e de tentativa, ao seu tempo, da permanência no poder. Os disparos de contenção levaram, entretanto, o sangue à capital e à decisão súbita das Forças Armadas de largarem Ben Ali.

O argumento foi o de que o presidente, de fato, ordenara a passagem dos tiros de festim para a munição grossa. O estopim da queda, como sofregamente alegado, não foi a mudança do preço de alimentos básicos ou o aumento do desemprego. A fotografia do jovem imolado acordava no inconsciente coletivo a refração do sistema, agravado pela continuada apropriação de cargos e dinheiros pelas famílias do regime, a começar pela da própria mulher do presidente. O exercício clânico do poder prospera diante da inércia ou do autoritarismo e entremostra a sua intolerabilidade, mesmo quisesse Ben Ali uma política de claro welfare. O regime caiu em horas, nessa aspiração democrática virgem, que se debate, ainda, na amplitude das reformas constitucionais que vai realizar, com a sobrevivência do status quo e a manutenção das regras do partido único em que nasceu a independência da Tunísia.

A nova cadeia de suicídios egípcios mal começa no seu impacto, não obstante a explícita condenação, pelo Corão, da imolação da própria vida. E é no contorno deste preceito que o Hezbollah se adianta agora, ao justificar nestes atos políticos a tolerância de Alá, como formas dos mesmos sacrifícios iniciados pelos jihads milenares. O que nasce agora em Túnis é um cansaço com um governo, ou, na espiral de martírio que começa, a exaustão com um sistema, e o início do avanço democrático no mundo árabe?

*Cientista político, presidente do Senior Board do Conselho Internacional de Ciências Sociais (Unesco) e membro da Academia Brasileira de Letras e da Comissão de Justiça e Paz.