O marajá vai correr o mundo

O roteiro passa pelos cinco continentes, com os vagares e os passeios, que ninguém é de ferro

Não se tem notícia confiável ou mesmo simples bisbilhotice de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tenha, alguma vez, nos oito anos dos seus dois mandatos, metido a mão no bolso para catar níquel para uma gorjeta ou pagar alguma conta de hotel, restaurante ou do café da despedida. 

 Não creio que seja por sovinice. Afinal, um presidente tão generoso na nomeação de petistas e aliados para as mais invejadas autarquias, como a Petrobras, a Vale do Rio Doce, ministérios que se multiplicam como coelhos, não deve dar tanta importância às economias de níqueis. 

Arrisco o palpite: trata-se de um caso típico de deslumbramento de quem subiu na escada da vida degrau por degrau e certamente hoje desfruta o que pode de uma Presidência que está dando certo, graças à sua liderança e à experiência de uma vida que ainda será recontada em prosa e verso pelas próximas décadas.

 Em toda a novela da escolha de sua sucessora, a presidente eleita Dilma Rousseff, Lula atuou como um ator nato, que sabe todos os truques do palco. Generoso e desprendido, fez o que quis. Indicou, ou nomeou, 90% dos ministros, presidentes de autarquias, deu palpites nas articulações com o Congresso. Depois fez as malas e viajou para a Argentina para receber as homenagens da presidente Cristina Kirchner, no encerramento da XX Cúpula Ibero-Americana, no belo balneário de Mar del Plata. E deu o seu recado oportuno: “Sou um político latino-americano, não vou deixar a política. Vou ter mais tempo para viajar, quero discutir política, partidos políticos”.

 A sua sucessora, presidente eleita Dilma Rousseff, foi lembrada com exata oportunidade, dos seus tempos de “militante de esquerda”, guerrilheira que foi presa e torturada durante três anos e meio.

 E Lula, mais longe, no balanço da emoção: “Dá orgulho saber que agora o torturador dela estará sofrendo o remorso de quem torturou uma jovem que queria a democracia para o Brasil”.

 Mas o presidente Lula conta os dias para a posse da presidente eleita e iniciar uma longa viagem ao redor do mundo. O roteiro passa pelos cinco continentes, com os vagares para as homenagens, os contatos políticos e os passeios que ninguém é de ferro. E tudo pago pelo Partido dos Trabalhadores, pois o PT é o partido mais rico do mundo, com as contribuições obrigatórias dos seus milhares de filiados. 

 O presidente mais popular do mundo cuidou do povo, mas não esqueceu a família. E tem sabido gozar a vida sem nunca despachar um processo ou redigir duas linhas. Assina o nome.  A leitura provoca tonturas e dores de cabeça.

 Lula aprendeu na adversidade a gostar da vida.