Há consciência branca?

A dona Manoela me convenceu da importância e da alegria de ser negro. Meu cabelo não era ruim

Instituída por lei, a data de 20 de novembro passou a ser considerada como o dia da Consciência Negra. A necessidade de lei para se “criar”, ou se respeitar, uma consciência já denota o grau de dificuldade para compreensão da questão. A forma como as pessoas discutem a luta do negro contra qualquer tipo de preconceito é outro fator a demonstrar que, infelizmente, estamos longe de um final feliz, da igualdade sonhada por Martin Luther King: “I have a dream”. 

Toda medida que vise minorar ou evitar mais desgastes à raça negra encontra obstáculos de toda índole pelos segmentos da sociedade. É assim com a questão da cota racial para as universidades e tem sido, agora, com a celeuma levantada acerca da utilização, no ensino fundamental, das obras do imortal Monteiro Lobato por supostos conteúdos racistas. A censura é insana. Não se admite. Por outro lado, fazer vista grossa ao fato de que uma criança negra será hostilizada pelos colegas ao se deparar com certas afirmações contidas na obra é menosprezar a dignidade humana. Rubem Alves relata no seu texto intitulado Crioulinha..., publicado na Folha de S.Paulo do dia 16 de novembro de 2010, seu enorme prazer ao ouvir a professora ler os textos o Saci, Viagem ao céu, As caçadas de Pedrinho, As reinações de Narizinho. 

Confesso que minha situação foi exatamente a oposta. Como era difícil, angustiante e decepcionante para mim, único negro numa classe de brancos, trabalhar com textos cujo personagem negro não despertava nenhuma “qualidade” cobiçada pela avidez das crianças daquela época. Evidente que a mim cabia ser tratado e chamado de “negrinho do pastoreio”, “o aleijadinho”, “Saci Pererê”. 

Ao contrário dos prazeres do educador Rubem Alves, lembro-me da aula na qual a professora pediu para que lêssemos um texto intitulado Ditinho pretinho. Bah!...justamente o meu nome e a minha cor. Fui motivo de risos. Cheguei a minha casa desconsolado. Só voltei à escola porque tive uma mãe que, não obstante não ser alfabetizada, tinha uma sabedoria divina. A dona Manoela me convenceu da importância e da alegria de ser negro. Disse-me ela, e nunca mais me esqueci, que meu cabelo, ao contrário do que pensavam meus colegas, não era ruim. Era bom. Muito bom. Não caía nos olhos e não ficava espetado. Que não deveria ser fácil ter cabelo liso, escorregadio e mole. Por isso, caríssimo Rubem Alves, as palavras duras, se inevitáveis, devem ser contextualizadas e orientadas no que tange às consequências interpretativas. Mesmo porque “a palavra pertence metade a quem a profere e metade a quem a ouve” (Michael Montaigne). Também não se tratava de mero costume da época as pessoas negras se oferecerem às famílias abastadas brancas para “trabalharem” em troca de criação. Era exploração mesmo. Escravidão continuada em pleno discurso da “abolição”. Dizer que “assim é a vida” e que, portanto, está justificado o tratamento e o uso dos termos, sinceramente, é ofender-nos por demais. A consciência negra deseja que a consciência branca tenha consciência de que apenas não queremos ser subjugados, subvalorizados. De que não existe um papel reservado, por natureza, a nós. Que podemos ter conquistas. Sucesso. Que não é certo dizer “cada macaco no seu galho”. Não nos satisfaz a liberdade, precisamos ter o direito e condição para usufruirmos dela. “Não basta levantar o fraco, é preciso mantê-lo depois”. Que se leia... que se leia muito. E que se leia muito Monteiro Lobato. Mas, que se orientem os educadores a trabalhar com toda e qualquer desigualdade. Talvez, usando um pouco mais de Machado de Assis, para quem “o homem não pode compreender senão as penas que já padeceu”.

O autor é mestre e doutor em direito pela Universidade Federal do Paraná e professor da USP, Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (SP)