O clima é de otimismo e comemoração depois que o poder público retomou o controle do complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, numa operação necessária e brilhante. Mas não devemos permitir que a poeira levantada pela justificada empolgação nos cegue os olhos diante de fatos capazes de manchar um trabalho tão importante e histórico. São graves as denúncias feitas à reportagem do Jornal do Brasil – publicadas na edição de ontem – a respeito de abusos supostamente cometidos por policiais contra moradores da comunidade, incluindo agressões e furtos, durante a revista às casas. Mais grave ainda é a declaração do delegado titular da Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados, Marcos Vinícius Braga, sobre o assunto:
– Não acredito que tenha havido abuso, mas podemos investigar.
Como, assim, “podemos investigar”? “Vamos investigar” soaria muito mais coerente com a proposta de retomada da cidadania e da dignidade naquela região.
Para usar um velho, mas ainda útil, exemplo é totalmente admissível que, num saco cheio de laranjas, algumas estejam podres. Temos certeza absoluta de que a imensa maioria dos agentes públicos envolvidos na reconquista do Alemão é composta por profissionais honestos, dedicados e incansáveis na luta pela retomada da moralidade no estado do Rio. Justamente em nome deles, é preciso investigar qualquer denúncia que venha dos moradores a respeito de possíveis excessos cometidos por aqueles que deveriam ser os primeiros a dar o bom exemplo.
É compreensível também que, num clima de aplausos aos bravos policiais e soldados que arriscam suas vidas no cumprimento do dever, moradores humildes e tristemente acostumados a serem subjugados pelo poder dominante tenham receio de formalizar uma denúncia contra os novos donos do pedaço. A falta de formalização das queixas não pode, no entanto, justificar uma eventual inexistência de investigação oficial.
Cabe às autoridades um empenho de igual teor na luta contra todos os bandidos, inclusive os que ainda insistem, apesar das circunstâncias, em usar farda.