Encíclica ‘Dives in misericordia’

       Apresento hoje uma reflexão sobre a encíclica Dives in misericordia. Ela é parte do panorama global sobre a Trindade apresentado por João Paulo II em três documentos e que tem sido objeto de estudo nos meus recentes artigos. O antropocentrismo cristão só é autêntico quando desabrocha no teocentrismo. Diz o Papa: “Enquanto as várias correntes do pensamento humano (...) têm sido e continuam a ser marcadas pela tendência para separar e até mesmo contrapor o teocentrismo e o antropocentrismo, a Igreja, seguindo a Cristo, procura, ao contrário, uni-los conjuntamente na História do homem de maneira orgânica e profunda. Isso é também um dos princípios fundamentais, talvez o mais importante, do Magistério do último Concílio (Dives in misericórdia, nº 1).

No dia 30 de novembro de 1980, ao anunciar o documento, justificou o conteúdo: “A Igreja e o mundo têm necessidade da misericórdia que revela o amor mais forte que o pecado e todo o mal, que envolve o homem em sua existência terrena”.

O grande papel da Igreja, inclusive em nossos dias, não é de natureza temporal, embora deva continuar profundamente inserida no mundo. Ela é forte enquanto age em decorrência do encargo que lhe foi confiado. Deve assim permanecer para defender eficazmente os direitos humanos. Nossa missão só é autêntica se é essencialmente religiosa. Caso contrário, reduz-se à estatura das demais organizações temporais.

Esse ensinamento põe à luz meridiana o perigo que hoje envolve a generosidade de alguns cristãos. Preocupam-se mais com um aspecto do quadro: o prevalentemente social. Sem se confinar ao âmbito das sacristias, nem por isso a Igreja deve secularizar-se.

A justiça, sozinha, não corrige os males que nos afligem. O papa reconhece que “um mundo do qual se eliminasse o perdão seria apenas um mundo de justiça fria e irrespeitosa, em nome da qual cada um reivindicaria os próprios direitos em relação aos demais” (idem, pág. 76). Caso isto ocorra, deforma o plano divino. Daí a triste constatação: “A palavra e o conceito de misericórdia parecem causar mal-estar ao homem, o qual, graças ao enorme desenvolvimento da ciência e técnica, nunca antes verificado na História, se tornou senhor da terra, a subjugou e a dominou” (Dives in misericordia, nº 2).

As exigências da equidade só têm o cunho cristão quando se completam com a ideia do perdão. Ele afirma: “A Igreja compartilha com os homens de nosso tempo este profundo e ardente desejo de uma vida justa sob todos os aspectos (...). Entretanto, seria difícil não dar-se conta de que, muitas vezes, os programas que têm como ponto de partida a ideia de justiça (...) na prática sofrem deformações (...). Há experiência do passado e de nosso tempo que mostra que a justiça, por si só, não é suficiente e, mais, que ela pode levar à negação e ao aniquilamento de si mesma, se não permitir àquela força mais profunda que é o amor, plasmar a vida humana nas suas várias dimensões” (idem, nº 12).

E o papa continua: “Tendo diante dos olhos a imagem da geração de que fazemos parte, a Igreja compartilha a inquietação de não poucos homens contemporâneos. Além disso, devemos preocupar-nos também com o declínio de muitos valores fundamentais que constituem valor incontestável não só da moral cristã, mas até simplesmente da moral humana, da cultura moral, como sejam o respeito pela vida humana desde o momento da concepção, o respeito pelo matrimônio com sua unidade indissolúvel e o respeito pela estabilidade da família” (idem). Estas citações nos dão um verdadeiro resumo de toda essa notável encíclica. Comparemo-lo com o que tem sido anunciado em diversos setores.

O valioso documento de João Paulo II insiste que nesta época, profundamente marcada pelas injustiças, incertezas e violência, é importante falar da misericórdia divina, proclamá-la em toda sua extensão. Em seguida, buscar que ela penetre a vida dos fiéis e quiçá de todos os homens de boa vontade. Consciente da grandeza de ter Deus por Pai, a Humanidade, acabrunhada pelo peso de tantos sofrimentos, revela na oração a confiança na bondade do Senhor. Esse grito de socorro mostra a necessidade de uma geração que se apoie no poder do Criador. Válido naquele tempo, continua atual nos dias de hoje, para todos os católicos.

O perdão não elimina a correção dos erros existentes, mas procura emendá-los dentro de uma perspectiva bíblica, tantas vezes lembrada no decorrer do texto que ora comentamos.

Eis por que devemos pregar a conversão ao Senhor, que “consiste sempre na descoberta de sua misericórdia (...). A conversão a Deus é sempre fonte de retorno para junto desse Pai, que é ‘rico em misericórdia’” (nº 13).

A leitura atenta da argumentação profunda desenvolvida pelo soberano pontífice em Dives in misericordia é apenas uma parte. A outra, mais importante, consiste na revisão de nossas vidas à luz desses ensinamentos. Fazendo-o com sinceridade de coração, retificando conceitos pessoais, “aplainando os montes e nivelando os vales”, na expressão de Isaías (40,4), encontraremos o Salvador.

*Dom Eugenio Sales, arcebispo emérito do Rio